Ainda mais sobre comentários

Ainda a propósito dos comentários que nunca serão publicados aos quais aludi ontem, convém talvez conceder-lhes um mérito: eles ajudam a compreender melhor a mente dos tarados do equipamento. É bastante interessante verificar que nunca recebi ataques como este quando escrevi sobre fotografias, fotógrafos ou história da fotografia, mesmo quando possa ter incorrido em imprecisões; quando, porém, o assunto é equipamento, edição de imagem ou mesmo certas técnicas fotográficas (como o HDR), há-de vir sempre alguém carregado de amargura e má criação a tentar fazer-me ver que estou completamente errado no que escrevo.

No caso de ontem o assunto era a Fuji X100, que reputo de menor pelas suas limitações (é impossível processar os ficheiros Raw na maioria dos programas de edição, o que a confina a fotografar em JPEG, só tem uma lente, a qual é de uma distância focal problemática, e é cara para o pouco que oferece), mas podia ter acontecido com outra câmara qualquer. Isto é mesmo assim: o fanboyismo é um fenómeno incompreensível, mas existe. E já escrevi sobre ele aqui. Continuo a não compreender por que razão alguém se pode sentir tão ofendido com críticas a um determinado equipamento que o faz descer ao ponto de insultar; quando tento entender por que razão o fazem, só me ocorre uma explicação: a insegurança.

Com efeito, é bem possível que estas pessoas, no seu íntimo, admitam que a câmara em questão, a qual lhes custou muito dinheiro e os fez passar por papalvos quando as elogiaram diante de pessoas conhecedoras, não lhes dá os resultados que esperavam. O problema é que o admitem para si, mas não quando são outros a criticar. Neste caso as pessoas são cruelmente confrontadas com aquilo que sabem ser verdade e reagem de forma visceral. Ou seja: admitem o erro perante si mesmos, porque sabem que foi um erro, mas não perante os outros. Porque não querem, provavelmente, parecer néscios ou ingénuos por terem tomado a decisão de adquirir aquele equipamento.

Pessoas como estas passam a vida a tentar justificar as suas aquisições. Perguntem a qualquer possuidor de uma Nikon da série 1 se não é assim. Não me espantou que, nos comentários a que aludi acima, estivessem incorporadas hiperligações para vídeos (que não me dei ao trabalho de ver) nos quais grandes fotógrafos usam a câmara que critiquei. Será possível que não se apercebam do logro que isto é? Esses grandes fotógrafos são pagos para usar material dessa marca e mostrar as melhores fotografias que conseguem fazer com ele. Não seria de esperar que mostrassem fotografias falhadas e explicassem as razões desse fracasso. A Apple usa esta artimanha para promover o iPhone. São as papas e os bolos com que se enganam os tolos. No caso da Fuji, esta marca usa «embaixadores» que, mesmo não sendo pagos, não vão decerto incorrer na descortesia de reconhecer as limitações do equipamento. O que vão é perder a isenção e colaborar numa campanha de marketing que, além de promover as vendas, tem o efeito marginal de consolar os que se sentem desiludidos com a aquisição dessa câmara. Evidentemente, os que se sentem frustrados com a aquisição da câmara mas detestam ter de reconhecer o seu erro usam este marketing como se fosse uma prova irrefutável da qualidade do produto, retirando algum conforto disso (embora saibam que não é mais que uma ilusão).

Esta entrada não podia terminar sem referir o vício mais detestável em que os fanboys incorrem: o de ver tudo como se fosse um conflito entre opostos e interpretar uma crítica como um ataque da facção oposta àquela em que militam. Foi assim que o tal leitor se permitiu o ridículo de insinuar que eu tinha interesses que me vinculavam à Canon ou à Nikon. Claro: se eu critico o Benfica, é por ser portista (e vice-versa); se critico o governo, é por ser de direita (ou vice-versa); se critico uma câmara da Fuji, é – evidentemente – por ser pago pela Canon ou pela Nikon. Porque todos sabemos que estas duas últimas marcas têm uma estratégia de mercado que consiste em pagar a bloggers para criticar os produtos dos outros fabricantes… isto é tão estúpido que nem merece mais elaborações. Fiquemos por aqui.

M. V. M.

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1 thought on “Ainda mais sobre comentários”

  1. habitualmente costumo dizer logo na primeira sessão, quando facilito workshop’s sobre fotografia que:
    ‘hoje não vamos medir o tamanho das pilinhas !’ e nem dou hipótese de me perguntarem se esta máquina é melhor do que aquela

    continuo grata pelas suas crónicas !
    maria josé barão

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