Da nostalgia

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Por vezes a consciência de que a fotografia analógica faz parte do passado atinge-me com estrépito. Sim, é um mundo que acabou, como diz Abbas, o grande fotojornalista iraniano, ao contemplar com nostalgia os livros e folhas de contacto que produziu ao longo da sua carreira. O mundo da fotografia analógica chegou ao fim. Hoje não é prático ir para um cenário de guerra, ou de revolução, e levar uma máquina analógica e rolos. Não há tempo para nada: tudo tem de ser mostrado imediatamente. Se a imagem demorar, alguém da concorrência a mostrará primeiro. Este é o ritmo dos nossos dias.

E isto é mau? Não – não necessariamente. Muito mais importante do que o equipamento que usa é o que o fotógrafo tem a dizer com as suas fotografias. Pode ser-se excelente usando uma câmara digital e péssimo com uma analógica. Ou vice-versa. No caso do fotojornalismo, porém, as questões de ordem prática sobrelevam a todas as demais: simplesmente não é produtivo usar uma máquina analógica nos nossos dias. Seria um anacronismo, uma excentricidade, uma perda de tempo.

Nada disto significa que se deva olhar o passado com desprezo. Hoje é muito fácil ridicularizar a película, tal como é fácil preconceber que todas as fotografias feitas com recurso à película eram tecnicamente imperfeitas, sendo todas elas desfocadas e pouco nítidas. Isto é simplesmente falso. O que levou ao fim da fotografia analógica – ou, pelo menos, a que ela deixasse de ser dominante – foi a demora dos processos. A demora em instalar o rolo, em expo-lo, em revelá-lo, em receber as cópias. Esta demora é totalmente incompatível com os tempos actuais em que, mesmo quando a urgência não é determinante, a gratificação instantânea impõe que tudo se tenha agora, . Neste mundo não é sequer concebível esperar dois dias para ver o resultado do que andamos a fotografar ultimamente.

Contudo, mesmo que a fotografia analógica tenha sido ultrapassada, não há razão para troçar dela. Os fundamentos da fotografia são hoje os mesmos que há cinquenta anos. A fotografia continua a depender da luz e das correlações entre a abertura, o tempo de exposição e a sensibilidade. A única diferença está na superfície sensível à luz, que passou a ser integrada na câmara. A fotografia digital é uma continuação da analógica, do mesmo modo que um filho sucede ao seu pai. Não há um antagonismo, um modo de fazer diferente. O que há é mais acesso à fotografia, o que – por mais pedante que isto possa parecer – é profundamente negativo.

Se a fotografia analógica acabou como meio de trabalho dos fotojornalistas, não se pode dizer o mesmo da fotografia amadora, ou de certos meios profissionais em que a apresentação instantânea de resultados não é crucial. Contudo, seria estarmos a iludir-nos a nós mesmos negar que este é um uso residual. Nem o evidente crescimento da procura de produtos da fotografia analógica serve para retirar esta última do lugar decididamente marginal que ocupa no mercado.

Eu não sinto a nostalgia de Abbas porque não fotografava quando a película era o único suporte fotográfico. Provavelmente, se a fotografia não tivesse feito a transição para o digital, não teria começado a fotografar. Sim, porque o meu entusiasmo nasceu sobre um erro: o de pensar que, sendo o digital uma questão de uns e zeros, todas as câmaras eram igualmente capazes. Um erro grotesco, é certo, mas foi ele que me levou a comprar uma câmara barata e começar a fotografar. Mas, se o meu exemplo serve de alguma coisa, meditem nisto: depois de experimentar a fotografia analógica, nunca mais me interessei pela digital.

Por tudo isto, não sinto a nostalgia de Abbas. Como poderia sentir nostalgia por algo que (pelo menos para mim) existe, está vivo, presente e actuante? Eu sei que é uma ilusão. A minha máquina e as suas lentes têm cerca de trinta anos e todos os dias rezo para que os fabricantes de película que ainda existem não fechem as fábricas. Sei que isto vai acabar mais tarde ou mais cedo – mas quero gozar enquanto existe.

M. V. M.

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