Do simbolismo

Por Manuel Rodríguez
Por Manuel Rodríguez

Quando envelhecemos, tendemos a acreditar que aquilo que de bom aconteceu na nossa juventude não se repetirá; que as novas gerações são necessariamente piores e, como tal, incapazes da grandeza da nossa. Como dizem os filósofos da escola pragmática de Boston: yeah, right. (Eu inventei a escola filosófica de Boston agora mesmo, mas tenho a certeza que, se existisse, os seus membros diriam isto.)

Ora, esta ideia de que nada de bom há a esperar das novas gerações é falsa. Antes de mais, porque nós – cada um de nós – não somos o cume da evolução da humanidade. Não se dá o caso de o universo ter feito convergir todos os seus esforços para nos criar. Houve bondade e qualidade antes de nós, há bondade e qualidade na geração presente e haverá bondade e qualidade no futuro. Nós é que nos tornamos cínicos e amargos e ficamos incapazes de olhar o presente sem as lentes coloridas com que apreciamos os nossos tempos áureos – e, por via desta ilusão (nós não somos tão bons como pensamos), antevemos o futuro com pessimismo.

Tudo isto vem a propósito de uma reflexão em que incorri ao descobrir a fotografia que encima este texto, que é uma daquelas cuja divulgação maciça lhes faz colar o adjectivo detestável de viral. Nesta fotografia uma criança de doze anos coloca-se à frente de uma manifestação homofóbica, convocada contra a decisão do governo mexicano em legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, fazendo-a parar. O rapaz contou ao fotógrafo Manuel Rodríguez que fez aquilo porque tem um tio homossexual e não aceita que o odeiem.

Isto é absolutamente comovedor, como é evidente a quem tenha um bocadinho de coração, mas ao olhar esta fotografia não pude reprimir-me de compará-la com as da repressão na Praça Tienanmen de 1989 e, sobretudo, com uma outra, de Josef Koudelka, que elegi como uma das melhores fotografias de sempre. Esta:

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O que mudou desde então não foi a qualidade dos fotógrafos: foi os temas. Uma manifestação contra o casamento de pessoas do mesmo sexo é fútil comparada com a invasão e perda de soberania de um país. Mesmo os activistas LGBT mais ferrenhos hão-de convir que isto é verdade. Ao que parece, hoje vivemos num mundo onde há muito poucas coisas verdadeiramente importantes a acontecer.

Há outro facto que me perturba nesta fotografia, que é a distância a que o fotógrafo estava da cena. Isto trouxe-me imediatamente à memória a citação de Endre Friedmann, que todos conhecem por «Robert Capa»: if your pictures aren’t good enough, you’re not close enough. Esta fotografia não é good enough nesta acepção, embora admita a possibilidade de o fotógrafo não ter conseguido chegar mais perto da cena por qualquer impedimento físico. Ou talvez tenha sido a única perspectiva que permitia perceber a dimensão da manifestação.

Seja como for, uma das coisas que não mudou entre Koudelka e Manuel Rodríguez é o poder de criar símbolos fortíssimos através da fotografia. Mesmo se todos tivéssemos gostado de ver uma fotografia mais chegada à acção, esta imagem é particularmente poderosa. Nela estão em confronto a inocência, na sua pequenez e solidão – e, contudo, de uma força indestrutível – e o ódio e o preconceito. E é uma metáfora da força imensa do amor, evidentemente. Porque foi o amor desta criança pelo seu familiar que fez parar a multidão de manifestantes.

Alegra-me que a fotografia não tenha ainda perdido esta magia de criar símbolos. Aliás, só a fotografia o pode fazer, porque só ela tem este poder imenso de congelar um acontecimento e transmitir graficamente a sua simbologia. Robert Capa, W. Eugene Smith e Marc Riboud, que foram excelentes na criação de imagens altamente simbólicas, podem descansar em paz: a sua arte não vai morrer. E nós, os das gerações descrentes do futuro, podemos ficar tranquilos (ou podíamos, se não fôssemos tão cínicos e empedernidos).

M. V. M.

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