Fervor

Resultado de imagem para iphone 7

A comunidade fotográfica criou a curiosa ideia de que tudo no mundo gravita à volta dela e do que lhe interessa. É assim quanto às DSLRs – já escrevi sobre isso aqui – e também quanto aos smartphones. Não admira, deste modo, que se possa esquecer que estes aparelhos também servem para fazer chamadas e navegar na internet quando se lê o que os websites de fotografia escrevem acerca do iPhone: a fazer fé naquilo que ali se escreve, é uma câmara fotográfica à qual acrescentaram um módulo GSM e um processador porque, enfim, cabia na caixa. Quando, na verdade, qualquer pessoa com um bocadinho de lucidez sabe que aquilo é um smartphone e todos os smartphones têm uma câmara embutida. A diferença é subtil, mas existe.

O que é certo é que, se repararmos na publicidade de qualquer smartphone, descobrimos que o grande ênfase é colocado na câmara: a Huawei gaba-se da colaboração com a Leica para desenvolver um sensor monocromático, a LG e a Samsung adornam os seus anúncios com fotografias que foram de certeza feitas com máquinas fotográficas digitais de médio formato, mas há-de haver quem se deixe convencer que os smartphones têm mesmo aquelas aptidões fotográficas. E agora o iPhone aparece-nos com uma lente dupla – ou melhor: uma lente grande-angular e uma standard –, o que bastou para levar a comunidade fotográfica à loucura.

Há muito que surgem uns pássaros bisnau na internet a tentar convencer-nos que o iPhone é uma câmara de pleno direito. Uns aparecem a narrar como trocaram a sua DSLR pesadíssima e volumosa pelo iPhone e estão felizes da vida, como se tivessem trocado a matrona de 49 anos com quem coabitavam maritalmente por uma jovenzinha de 18 anos; outros vêm dizer-nos que Henri Cartier-Bresson usaria um iPhone se ainda fosse vivo – ignorando que, se ele ainda fosse vivo, por esta altura estaria a esmurrar a tampa do caixão e a gritar «tirem-me daqui» (em francês, claro). E há uma multidão de seguidores capaz de jurar que o iPhone é a melhor câmara do mundo porque sim, ou porque é a câmara mais vendida do mundo ou porque é a que contribui com mais fotografias para o Flickr. E, evidentemente, há os jornais que despedem fotojornalistas e equipam os repórteres redactoriais com iPhones, o que para muitos é prova de que o iPhone é uma grande câmara.

Entendamo-nos: o iPhone é capaz de fotografias de uma qualidade mais que aceitável. Já o escrevi aqui, tal como já afirmei que não queimaria os dedos se usasse um destes pequenos iMacs para tirar fotografias. Simplesmente, o aspecto das fotografias tiradas com o iPhone depende em 90% do trabalho do processador ou do uso de apps que dão à imagem uma determinada estética. Não há nada mais manipulado – ou retocado, se preferirem – que uma fotografia tirada com um iPhone. (O iPhone 7 grava imagem em ficheiros Raw, mas não me parece que seja de esperar algo de excepcional de um sensor minúsculo.)

Penso que estes delírios quanto à qualidade do iPhone têm uma causa. O iPhone – qualquer deles – é um objecto extremamente apetecível. E é um pequeno computador que anda no bolso e tem uma câmara embutida – e, como bónus, tem um design fabuloso e uma qualidade percebida extremamente elevada, tal como quase tudo o que a Apple faz. Os seus proprietários nutrem, por tudo isto, um fervor pelo iPhone que anda próximo da devoção. É irracional, evidentemente, mas compreensível. É este fervor que os leva a entoar loas à qualidade da imagem, mas esta qualidade, posto seja real, deve ser analisada com um grão de sal. Antes de mais, não são os atributos ópticos, sejam eles da lente ou do sensor, que determinam esta aparentemente alta qualidade: são os algoritmos do processador. Depois, esta qualidade só lhe é atribuível se compararmos o iPhone com compactas baratas ou com outros smartphones. E é ilusória, porque hoje vê-se fotografias através do ecrã de smartphones e não é difícil, em tamanhos tão pequenos, que uma fotografia pareça ter uma qualidade excelente. É quando as imprimimos em tamanhos razoáveis, ou mesmo quando as vemos em tamanhos grandes – digamos o tamanho de um monitor, ou do ecrã de um computador portátil – que essa qualidade é testada. E as imagens do iPhone não passam o teste.

É evidente que Cartier-Bresson não usaria um iPhone se fosse vivo, tal como é verdade que a qualidade de imagem é artificial e fabricada pelo processador. E convém manter alguma lucidez: o iPhone não é uma câmara. É um smartphone que tem uma câmara embutida, como todos os outros smartphones. E uma câmara que não é melhor que qualquer outra: é igual ou pior, mas as fotografias que capta são habilmente manipuladas de maneira a parecerem ter uma qualidade acima do normal. E têm – mas só se entendermos por «normal» a qualidade que serve de padrão para as selfies e fotografias de comida que se publicam no facebook (o que corresponde a um abaixamento a pique dos padrões de qualidade, convenhamos). Duvido que Mark Sutton alguma vez vá trocar a sua Nikon D5 por um iPhone para fotografar os Grandes Prémios.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s