Uma grande surpresa

Eu não posso dizer que tenho inveja de quem faz bons retratos, pela razão simples de que não reúno as qualidades necessárias para fazer retratos. Seria como ter inveja dos bons revisores oficiais de contas ou dos bons psicólogos clínicos: não tenho aptidões para ser um deles, pelo que seria ridículo sentir inveja.

É esta a distância que me separa dos retratos. Ou talvez seja daquelas coisas que seria capaz de fazer se tentasse, mas que me abstenho de tentar, como fazer a viragem em cambalhota na piscina quando nado crawl e costas.

O que é certo é que considero o retratismo uma das categorias mais nobres da fotografia. Tenho esta noção porque a minha concepção de retrato nada tem que ver com a mera amostragem do rosto de uma pessoa: o retrato é mostrar a pessoa. Se esta distinção for demasiado subtil, deixem-me explicar: o bom retrato é aquele que nos faz adivinhar a personalidade da pessoa retratada. O rosto humano é mais revelador do que o mais detalhado curriculum vitae, mas por vezes não é fácil que um retrato transmita os traços de personalidade.

Há também um fenómeno curioso no bom retrato: é que, além de mostrar a personalidade do retratado, mostra também o que o retratista pensa dele. É por isto que os retratos de Winston Churchill, Samuel Beckett e Konrad Adenauer, feitos, respectivamente, por Yousuf Karsh, Jane Bown e Chargesheimer são tão profundamente interessantes: estão ali os rostos das pessoas retratadas, com tudo o que elas são ficando bem patente, mas também as concepções que os fotógrafos desenvolveram acerca dos retratados.

Por outras palavras, o retrato é difícil por ser de exigir que o fotógrafo mostre a forma como vê a pessoa retratada. Neste aspecto não é diferente de qualquer outra modalidade da fotografia, mas com o objecto a ser também a descrição do rosto e da substância da pessoa retratada. É, portanto, triplamente difícil. Mostrar rostos é nada: para isso há as cabinas à la minute (eu juro que vi uma em funcionamento na estação dos caminhos de ferro de Aveiro há três anos!), pelo que nem sequer seria preciso um fotógrafo se o objectivo fosse só esse.

Se não invejo os retratistas, pelo menos admiro-os. Posso não saber fazer bons retratos, mas sei quando estou na presença de um. Pelo menos gosto de pensar que sim.

Tudo isto vem a propósito de uma pesquisa que fiz para o texto de Quinta-feira, quando procurava fotografias de Harry Gruyaert. Uma das fotografias que foram encontradas pelo motor de busca era um retrato do próprio Gruyaert, um retrato excelentemente bem executado que nos faz instantaneamente compreender as concepções e as ideias do excelente fotógrafo belga.

Depois abri a ligação para a página do Flickr onde esse retrato fora publicado. A minha boca abriu-se de espanto: estão ali retratados, com graus diversos de sucesso mas sempre com grande qualidade e integridade, praticamente todos os grandes fotógrafos vivos (e alguns recentemente falecidos, como Will McBride e René Burri). Todos feitos por um fotógrafo de que nunca ouvira falar: David Kregenow, alemão de Berlim.

Visitar a sua página do Flickr é um verdadeiro curso introdutório à história da fotografia contemporânea. Ou melhor, é a história a fazer-se a si mesma. Estão lá retratados Sebastião Salgado, Steve McCurry, Alec Soth, Brian Griffin (o das capas dos Depeche Mode, não o cão de The Family Guy) e Martin Parr. E muitos outros.

Nunca suspeitei da existência de um acervo tão importante de retratos. Quando escrevo «importante», faço-o com a consciência plena da gravitas deste adjectivo: estes retratos são verdadeiramente importantes para quem acompanha a evolução da fotografia. Por mim, apesar de não ceder facilmente a distracções “sociais” da internet, tornei-me seguidor de David Kregenow no Flickr, o que significa que vou manter-me informado sobre tudo o que ele publicar. E há o seu website, que bem merece uma visita (e um adicionamento aos favoritos, já que estamos numa de socialização cibernética).

Como é que coisas como estas acontecem debaixo dos nossos narizes sem nos darmos conta?

M. V. M.

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