Do iPhone 7 à Magnum, passando pelo Tour de France

1. Estou a borrifar-me para o iPhone 7. Quando li que estava equipado com duas lentes, ainda fiquei ligeiramente entusiasmado porque pensei que a Apple tivesse tentado imitar as TLR. Afinal de contas, o 7 Plus é tão grande que bem podia conter um sensor de médio formato, mas não é nada disso: as duas lentes – que equipam apenas a versão Plus – são uma grande-angular e uma standard equivalente a 56mm que entra em acção quando se faz zoom (ou qualquer coisa parecida). Big deal.

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Imagem: Bloomberg

Nunca conseguirei compreender a mente dos alienadinhos que fazem fila à porta das lojas Apple sempre que esta anuncia um novo produto – seja ele qual for, não apenas smartphones. O iPhone original foi de facto uma inovação, mas desde o seu lançamento, tudo o que a Apple tem feito é refinar o conceito original (alguns destes retoques são bastante marginais) e aumentar os preços. Não posso discutir a qualidade dos produtos, mas a Apple parece-me de uma cupidez insaciável. O primeiro iPhone custava, em Portugal, €500; o iPhone 7 com ecrã de 4,7 polegadas custa €780 e, se o comprador optar pela versão Plus, com ecrã de 5,5 polegadas, terá de pagar qualquer coisa como €1.140. São preços de computadores portáteis de alto rendimento, os quais têm as vantagens de permitir que se trabalhe com eles e de providenciar uma navegação mais confortável. Os smartphones, esses, são como os canivetes suíços: andam no bolso e fazem tudo, mas fazem tudo sofrivelmente.

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Por Peter van Agtmael

2. Muito mais relevante para quem gosta de fotografia é o artigo no website da Magnum sobre a reportagem fotográfica que Peter van Agtmael fez do Ku Klux Klan. No meu caso, a curiosidade misturou-se com a repulsa. As fotografias de Peter van Agtmael são, na sua maioria, esplêndidas – como decerto se esperaria daquele que é um dos fotógrafos mais premiados da actualidade e um dos fotojornalistas com curriculum mais extenso, apesar de ser ainda muito jovem (nasceu em 1981) –, mas o Ku Klux Klan é sinistro. Entendamo-nos: aquilo é um bando de assassinos e criminosos cuja existência é criminosamente tolerada. Aquela gente matou e destruiu ao longo de mais de um século e a sua organização pode, sem esforço, ser considerada o grupo terrorista mais longevo de sempre; contudo, tem persistido ao longo dos tempos sem que cause a repulsa e reprovação geral que o Hamas, a Al-Qaeda ou o Daesh provocam. Será por serem brancos?

Seja como for, vale a pena ler a entrevista de Peter van Agtmael. É interessante que ele tenha tido o propósito deliberado de fazer fotografias despidas de sentimentos. «Tenho a impressão que as pessoas não vão ver estas fotografias e sentir-se inspiradas pelo KKK», ironiza van Agtmael. Com efeito, e apesar de um domínio da expressão que é bem patente na maioria das fotografias, estas causam mais terror do que admiração. Van Agtmael é um fotógrafo socialmente consciente e sabe que as imagens, sendo ilusões, têm o poder de induzir as pessoas em erro quanto às qualidades das pessoas e objectos fotografados. As imagens dos membros do KKK mostram-nos tal como eles são: gente execrável, consumida pelo ódio ao seu semelhante e náufragos de um mar de contradições. Van Agtmael pode ficar descansado: ninguém vai ficar fascinado e correr para se alistar no Ku Klux Klan depois de ver este ensaio fotográfico.

3. Ainda a Magnum, mas desta vez a propósito do último episódio de Contacto. Desta vez era sobre Steve McCurry. Depois de ver aquilo, só me resta esperar que ele recupere a integridade que ficou abalada com os escândalos – ou pseudo-escândalos – que foram conhecidos ultimamente, porque ele é realmente um dos grandes fotógrafos vivos e não merece, pela sua carreira absolutamente incrível, ver o nome arrastado pela lama por gente invejosa e medíocre.

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Por Harry Gruyaert

4. Por fim, e sem sair muito do tema Magnum: conhecer a obra de alguns fotógrafos deixa-me ambivalente acerca de uma questão que nunca cheguei verdadeiramente a resolver: deve quem fotografa ater-se a um só tema, especializando-se nele e investindo nisto todos os seus conhecimentos, ou deve diversificar a sua panóplia temática? Eu já fui um cultor do ecletismo, o que atribuí mais tarde à minha falta de experiência; desde então mantive-me mais ou menos fiel a uma temática, mas agora tudo mudou de novo quando descobri fotografias de reportagem do Tour de France (ou «Volta à França», se quiserem, mas em francês soa mais kraftwerkiano) feitas por aquele que é o melhor fotógrafo belga, Harry Gruyaert. Que espanto de fotografias! Gruyaert não é exactamente um fotojornalista desportivo; se ele se recusa a ser prisioneiro de uma temática única, por que deveríamos nós conformarmo-nos com essa grilheta?

M. V. M.

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