Silly Season

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Um «meio aéreo» (imagem Jornal da Madeira)

O estio, que vive neste Setembro os seus dias de estertor, trouxe-nos uma apoteose serôdia de canícula, e com esta redobraram de vigor os incêndios que devoram a nossa mata ciclicamente, trocando paisagens verdejantes por cenários desolados, áridos e pedregosos.

Por vezes tenho a impressão que os incêndios são mandados atear pelas televisões «generalistas», tal a voragem noticiosa com que os fogos florestais ocupam os noticiários da tarde e da noite da RTP, SIC e TVI. Passam-se três quartos de hora sem que saibamos notícias do que se passa no mundo: quando há incêndios, tudo o que precisamos de saber é da luta heróica dos bombeiros e, sobretudo, da desgraça dos que perderam as suas casas e terrenos. As reportagens são requintadas de tão fastidiosas: nelas vê-se os vizinhos tentando apagar os fogos nos terrenos confinantes, bombeiros alardeando a sua heroicidade, responsáveis da protecção civil fingindo estar no comando de pretensas «operações» (quando é manifesto que os combates aos fogos são particularmente anárquicos, espontâneos e empíricos), meninas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera explicando-nos como se deslocam as superfícies frontais quentes e os relatos de detenções de incendiários.

Este tipo de cobertura noticiosa, denominada nos meios académicos como «encher chouriços», tem o efeito de nos deixar anestesiados. Os incêndios, e a destruição e perda que trazem consigo, tornam-se vulgares e tediosos de tão repetidos. O resultado de uma exposição tão obsessiva nas televisões é, já não a indiferença, mas a hostilidade. Não consultei todos os lares com televisão, mas tenho a certeza que muita gente muda de canal à hora dos noticiários para não se sujeitar à overdose informativa.

E, contudo, este flagelo que vai destruindo o país devia deixar-nos preocupados. Por regra, quando acontecem tragédias como terramotos e inundações, o povo mobiliza-se e acorre às vítimas, mas nos incêndios dificilmente isto acontece, mesmo que haja mortes e a destruição seja extensa. Talvez porque, de tão banalizados pelos noticiários, ninguém querer saber dos incêndios. Este estilo noticioso apenas cria aversão, como se fosse uma refeição pesada e repugnante que nos empurrassem pela garganta abaixo.

De resto, já sabemos que para o ano vai passar-se tudo exactamente da mesma maneira. Continua a não se fazer prevenção, a não se limpar as matas, a plantar-se espécies que ardem facilmente e a fazer-se negócio com a venda de material de combate a incêndios. Curiosamente, dá-se enorme destaque à bronca com os Kamov, mas ninguém refere que o governo anterior alterou a lei do ordenamento florestal de maneira a permitir que os proprietários de terrenos até dez hectares plantem livremente os seus eucaliptos e pinheiros – apesar de estas pequenas propriedades constituírem a maioria no norte e no centro (onde há mais incêndios) e de aquelas espécies não serem particularmente ignífugas. É indecoroso, mas é uma daquelas notícias que não convém, a estas televisões tão fortemente empenhadas em imputar escândalos ao governo actual, que sejam muito divulgadas.

No meio de tudo isto, até pode parecer mesquinho que a minha maior fonte de irritação venha da estupidez crassa dos repórteres que fazem a cobertura noticiosa dos incêndios. Estas criaturas, além de demonstrarem despudoradamente a sua aviltante ignorância e impreparação, gostam de fazer figura de idiotas quando descrevem o equipamento utilizado no combate aos incêndios. Ei-los, de repente, de microfone em punho e pose estudada, a balbuciar inanidades sobre os «meios aéreos», dizendo que o incêndio está a ser combatido por dois meios aéreos, ou que se aguarda a chegada de mais um meio aéreo.

Francamente – que coisa tão estúpida! Eu fico fulo da vida quando ouço estes disparates: mudo imediatamente de canal – apenas para descobrir que nos outros canais estão repórteres a enunciar exactamente as mesmas parvoíces!

«Meios aéreos» é uma designação genérica com a qual se pretende abranger a generalidade das aeronaves – aviões e helicópteros, ou apenas uns destes – empregues no combate a um incêndio. Tal como por «meios terrestres» se entende o conjunto de veículos usados na luta contra o fogo. Ninguém se lembra de chamar «um meio terrestre» a um todo-o-terreno ou a um camião-cisterna dos bombeiros, mas um avião – ou um helicóptero, tanto faz – é um «meio aéreo». O que leva a que se profiram absurdos como «o incêndio está a ser combatido por dois meios aéreos», provavelmente porque é muito mais fácil dizer «meio aéreo» que «avião» ou «helicóptero».

Aliás, se isto se propaga, já estou a imaginar algumas conversas no futuro:

– Então, onde vais passar as férias?

– Vou passar uma semana em Paris.

– E como vais?

– Vou de meio aéreo.

Pronto, já desabafei. Eu sei que sou o único português que repara nestas picuinhices que não têm importância nenhuma, mas isto irrita-me. (Posto não tanto como ouvir dizer que um processo está «sobre a alçada» do Ministério Público.) Apesar de gostar do calor e do estio, dou por mim a desejar que a chuva e o frio cheguem para não ter de levar mais com três quartos de hora de notícias sobre incêndios e, sobretudo, não ter de ouvir cretinos (e cretinas, que nestas coisas há uma grande igualdade de género) a verborrear acerca dos dois meios aéreos que estão a combater o incêndio.

M. V. M.

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1 thought on “Silly Season”

  1. Não, não é único a reparar nessas picuinhices irritantes. Eu também acho que “aeronave” é o “nome genérico dos aparelhos por meio dos quais se navega no ar”, como consta no dicionário Priberam. Mas há mais. Dois exemplos: as noites quentes são agora designadas como “noites tropicais” e os “campos de futebol” há muito que destronaram o hectare como unidade de medida agrária. Uma lástima.

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