As minhas aventuras com um smartphone

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As minhas tentativas de acompanhar os tempos contemporâneos estão a redundar em fracassos consecutivos, empurrando-me inexoravelmente para a condição de burro velho que não aprende línguas. Como sabem, adquiri há duas semanas um smartphone. É um aparelho que não me custou demasiado dinheiro – alguns destes dispositivos custam à volta de oitocentos euros, mas o meu ficou dez cêntimos abaixo de uma centena de euros –, mas é fisicamente apelativo (ganhou um prémio IF de design em 2015) e é uma forma de andar com um computador sempre no bolso.

Hélas, é logo aqui, nesta última asserção, que encontro alguns problemas. Para que quero andar sempre com um computador no bolso? Para que queremos (todos nós) andar sempre com um computador no bolso? «Para estarmos sempre conectados», responderão alguns. Outros dirão que é sempre útil ter um computador à mão quando é preciso; e, se encontro razoabilidade nestes argumentos, também vejo nisto um lado extremamente negativo. Poderíamos pensar que o smartphone nos liberta de ter de carregar um computador mastodôntico, mas o que acontece não é nenhuma libertação: pelo contrário, ficamos mais aprisionados ao computador. Ter um laptop – ou mesmo um computador de torre – obriga a termos um tempo para ele, que pode ser de trabalho ou lazer, mas deixa sempre de fora algum tempo durante o qual estamos afastados do computador. O smartphone implica que o computador é omnipresente, sempre pronto a interferir nos momentos que deviam ser para apreciar de outras maneiras. Insidiosamente, o computador impôs-se em cada momento das nossas vidas. Dizer que isto é uma forma de alienação é porventura excessivo, mas é o que me vem à mente quando vejo pessoas que estão fisicamente juntas, mas não se falam e nem sequer se olham por estarem demasiado ocupadas a manusear o seu smartphone.

Sim, mas é prático – poderão alguns replicar. Não, prático não é com certeza. Eu tenho um certificado de aptidão de formador e acontece-me por vezes ministrar módulos de formação. Um recurso didáctico que uso em todas as sessões é o Power Point: levo o meu PC para a sala, ligo-o ao projector e baseio a formação nos slides que vão sendo projectados. Com um smartphone não posso fazer isto. Aliás, até o envio de mensagens SMS, um acto frequente e simples com qualquer telemóvel, se tornou num pesadelo: os caracteres do teclado virtual ocupam uma área demasiado pequena, fazendo com que os enganos sejam de tal maneira frequentes que podem levar ao desespero (a menos que se tenha dedos do tamanho dos de uma criança de cinco anos).

Navegar na internet com um smartphone é outro absurdo. Só os iPhones, com o sistema operativo iOS, permitem uma navegação minimamente racional. O Android e o Windows Mobile são ridículos. Melhor dizendo, o que é ridículo não é o sistema operativo: é querer substituir o computador por um smartphone para usar a internet. Não vou certamente escrever ou publicar textos no Número f/ com o smartphone, e mesmo navegar pelo Flickr é uma experiência execrável: as fotografias não se ajustam ao ecrã e não se pode fazer zoom out. O meu smartphone tem um navegador que torna virtualmente impossível encontrar o histórico de navegação; talvez as coisas melhorem se/quando descarregar o Firefox para smartphones, mas descarregar aplicações é um suplício que se prolonga por várias horas. E o simples acto de escrever um nome de utilizador e uma palavra-passe para aceder a um website de que se é subscritor é exasperante por causa do tamanho da área dos caracteres.

Como se tudo isto não bastasse, o consumo de bateria quando o smartphone está ligado a uma rede Wi-Fi e se navega na internet é verdadeiramente pantagruélico. Estes aparelhos devoram energia eléctrica. A EDP e a Endesa devem ter triplicado os lucros à custa dos carregamentos diários das baterias dos smartphones. Para que a carga da bateria tenha uma duração decente, é necessário desligar a ligação Wi-Fi, o que nega imediatamente sentido e utilidade ao aparelho, que fica assim convertido num mero telemóvel. (Felizmente, o meu aparelho não é nada mau – antes pelo contrário – quando cumpre esta última função.)

Depois de tanta abjuração, o leitor poderá dizer que nunca vou usar mais que 10% das possibilidades do smartphone, mas paciência. Se aceder à internet é mais fácil, prático e confortável usando o computador, que interesse tenho em fazê-lo num aparelho minúsculo e que de prático nada tem? E logo eu, que tenho alguns problemas de visão? Como não passo os dias no facebook, não tiro selfies nem caço Pokémons (felizmente este passatempo idiótico está a perder interesse), dispenso as funções de navegação. Claro que, se estiver a fazer uma viagem, o smartphone vai ser útil – mas só se tiver por perto um meio de recarregá-lo: caso contrário, um smartphone sem bateria nem como telemóvel serve.

Os mais atentos terão reparado que nem por uma vez referi o facto de o meu telemóvel ter uma câmara. Não foi por esquecimento: é que não vale a pena mencioná-la. A pessoa que se lembrou de incorporar uma lente e um sensor num telemóvel merecia ser imolada num auto-de-fé. Ou serrada ao meio lentamente. Ou empalada num poste de alta tensão. Ou, no mínimo, molestada sexualmente por um grupo de adeptos do Tottenham Hotspurs completamente bêbados.

P. S.: descobri que não consigo descarregar o Firefox para Android sem antes configurar uma conta no Google. Ou seja, estou preso ao Google. Isto deixar-me-ia irado como um possesso se não tivesse descoberto um vídeo no Youtube que ensina a desinstalar o Google. Ah!, como eu adoro estas vitórias sobre a tirania das multinacionais gananciosas!

M. V. M.

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