História de uma fotografia

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W. Eugene Smith, “Tomoko Uemura in Her Bath” (1972)

Peço desculpa por maçar os leitores com mais um texto sobre o fotógrafo que elegi como o meu favorito. Eu ainda não conheço bem a obra de todos os bons fotógrafos, ou pelo menos daqueles que em toda a parte são havidos como os melhores, mas posso dizer que conheço bem as fotografias dos mais distintos entre eles. E, quando conheci as fotografias de W. Eugene Smith, deparei com o facto, altamente perturbador, de não ter visto nenhuma que me levantasse qualquer espécie de objecção. Robert Capa tem fotografias cuja qualidade gráfica está abaixo do que se pode esperar de alguém como ele; Cartier-Bresson fez retratos desfocados e sem uma verdadeira visão dos seres que habitaram os rostos fotografados; algumas fotografias de Koudelka são desinteressantes, o mesmo se podendo dizer de Sebastião Salgado e de Robert Doisneau. Mas Smith? Cada fotografia de W. Eugene Smith é uma ode à fotografia. Não conheço nenhuma fotografia dele em relação à qual sinta rejeição, quer na técnica, quer na estética ou no conteúdo. Não posso dizer que são perfeitas, porque a perfeição não existe – mas estão muito próximas da perfeição.

Havia, até ontem, uma fotografia que era, do meu ponto de vista, o exemplo mais conseguido da arte fotográfica de W. Eugene Smith: era a fotografia de um velório de um homem espanhol. Nesta fotografia tudo é admirável: a forma como os rostos convergem para o cadáver, as expressões de cada um desses rostos, a composição, o contraste – numa palavra: tudo. Cada velador presente no enquadramento parece desempenhar um papel bem definido, sendo fácil ver qual era o seu grau de proximidade com o defunto através das expressões faciais e corporais. Depois há a figura misteriosa do canto superior direito, cujo olhar e posição no enquadramento parecem organizar e dar coerência às linhas da composição. Se havia uma fotografia capaz de ilustrar o génio de W. Eugene Smith, era certamente aquela – a despeito da ternura que Walk to Paradise Garden me induz; esta ainda é a que me toca mais de perto, mas não é o prodígio de composição nem tem a densidade e força do velório espanhol.

Um dos problemas de ser relativamente novo na fotografia é estar constantemente a descobrir coisas que me obrigam a deitar abaixo o edifício que havia pacientemente construído para erigi-lo de novo à luz de conhecimentos mais recentes. Por vezes é um suplício de Sísifo. Hoje de madrugada, enquanto navegava preguiçosamente na internet, descobri uma fotografia que, não me obrigando a destruir os conceitos adquiridos, me fez contudo reavaliar as minhas referências no que respeita a W. Eugene Smith. O que não serviu para desfazê-las, mas para colocar este fotógrafo ainda mais firmemente no topo das minhas preferências.

Entre as décadas de 50 e 70 do Século passado, a cidade japonesa de Minamata atravessou um surto de poluição que causou doenças na população local, provocadas pelo envenenamento das águas por efeito de descargas de mercúrio a que a fábrica de químicos de uma empresa denominada Chisso procedia. W. Eugene Smith viveu em Minamata entre 1971 e 1973, onde retratou vítimas da que ficou conhecida como «doença de Minamata», caracterizada pela degeneração neurológica dos doentes e por deformidades físicas, ambas adquiridas pela ingestão de peixe contaminado pelos agentes poluentes. Diz-se que W. Eugene Smith foi advertido para não mostrar ao mundo o que se estava a passar em Minamata e que foi agredido por yakuzas pagos pela Chisso, tendo ficado com a visão afectada por ferimentos num olho.

Pois bem: foi nesta ocasião que W. Eugene Smith criou a fotografia que muitos consideram a sua obra-prima: Tomoko Uemura in Her Bath, que retrata uma mulher banhando a sua filha severamente afectada pela doença de Minamata. Esta é, possivelmente, a mais majestosa das composições fotográficas de W. Eugene Smith, e é certamente aquela na qual a sua mestria fotográfica e erudição artística são mais evidentes. É uma fotografia pungente, carregada de significado, mas, ao mesmo tempo, esteticamente bela e de uma composição e enquadramento simplesmente perfeitos. Tudo, do recorte aos tons sombrios, é maravilhoso nesta fotografia, mas a estética é nada quando comparada com a mensagem que transmite: a consciência do horror que caiu sobre aquela cidade e da dor que causou nos seus habitantes.

O que também se vê nesta fotografia é um respeito profundo: Smith não tentou explorar a infelicidade daquela família: tudo quanto quis foi criar graficamente um símbolo da doença de Minamata, no que foi extremamente bem sucedido, mas sempre dentro dos limites do respeito, da dignidade e do decoro.

Minamata viria a ser o lugar onde foi celebrada a convenção que baniu a exploração de minas de mercúrio e previu a eliminação gradativa das suas aplicações. E foi também o lugar onde W. Eugene Smith fez uma das suas melhores fotografias (se não quisermos considerá-la a melhor). Sendo ele o melhor fotógrafo de todos os tempos, Tomoko Uemura in Her Bath tornou-se, muito justamente, numa das fotografias mais importantes de sempre.

M. V. M.

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2 thoughts on “História de uma fotografia”

  1. Relativamente ao Eugene Smith, descobri há pouco tempo que a Biblioteca do Congresso dos EUA tem disponível (on-line) uma coisa chamada “A city experienced; Pittsburgh, Pa.; a photographic interpretation and essay by W. Eugene Smith, conceived and photographed in 1955-56”. Para mim, uma das coisas mais fantásticas é que estão não apenas as fotografias que sairam bem, mas tembém “contact sheets” com as que saíram menos bem, que permitem perceber melhor o processo criativo do fotógrafo. Já agora, o meu interesse pelas “contact sheets” surgiu quando encontrei numa livraria o livro “Magnun Contact Sheets”. Não o comprei (é um bocadinho caro), mas vale bem a pena procurá-lo. Entre outros, tem algumas “contact sheets” do René Burri, que ainda noutro dia foi aqui referido.

    A ligação para o documento da Biblioteca do Congresso é:
    https://www.loc.gov/pictures/item/2005682181/
    [a qualidade dos jpg’s é fraquinha, mas a dos ficheiro tif é brutal]

  2. Sobre a sua opinião, parece-me oportuno revelar uma entrevista fantástica a Robert Frank em 1977, no Wellesley College, na qual ele refere que a fotografia deve ir para além da estética e do jogo das formas e que os fotografos devem estar “presentes”, referindo-se a W. Eugene Smith. Nessa entrevista ele questiona alguns dos “mitos urbanos” da fotografia. Concordo plenamente com o conteúdo do seu texto. Ricardo Luis Neves.

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