Fotojornalismo, arte e estética (a propósito de Marc Riboud)

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Marc Riboud (1923-2016)

Hoje fiquei a saber de mais uma notícia triste: a morte de Marc Riboud, fotojornalista e um dos cooperadores mais antigos da Magnum, da qual foi presidente da direcção durante três anos.

Marc Riboud pertenceu à mesma estirpe que Robert Capa, W. Eugene Smith, Josef Koudelka e Don McCullin, estirpe que se estende hoje a Paolo Pellegrin e Paul Hansen. As suas fotografias são únicas e brilhantes. São, tal como as dos seus predecessores, fotografias de reportagem que elevam os padrões de qualidade a níveis quase impensáveis.

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E por que não? Por que haveria de ser a reportagem estritamente textual, factual? O fotojornalista não pode – não deve – ter a pretensão de que os espectadores olhem para as suas fotografias: deve fazer com que olhem para a história que elas contam. Mas, se for possível aliar essa narração a uma linguagem estética de índole artística, não vejo por que não devam os fotojornalistas fazê-lo.

E não é tanto o mostrar, mas o ver. É ver as coisas de uma maneira diferente e transmiti-lo de tal maneira que os espectadores se sintam informados. Não é necessário mostrar cadáveres e corpos mutilados na sua crueza para que as pessoas compreendam a guerra: todos sabem que as guerras implicam mortos e feridos. Já mostrar o absurdo da guerra, o seu lado irracional e desumano, e fazê-lo usando padrões artísticos, é algo que só está ao alcance dos melhores entre os melhores. É o caso de todos os que citei, mas também do nosso João Silva, do seu companheiro no Bang Bang Club, Kevin Carter, e de fotojornalistas porventura menos reputados, mas de enorme valor, como Anja Niedringhaus. Em todos eles há a vontade de enviar uma mensagem que é subtil e envolta em beleza estética, mas que, simultaneamente, comunica de forma eficaz. Pelo menos para quem souber e estiver disposto a entendê-la.

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Por vezes, porém, parece-me que, com algumas excepções, esta aptidão para fotografar assim está a desaparecer com a geração que a iniciou. Hoje há fotojornalistas que nem sequer se preocupam com o lado da comunicação que uma fotografia de reportagem tem de ter. Estão mais preocupados em transpor as Pietà e as Madonna para cenários de guerra, em fazer fotografias que podem ser consideradas, no limite, como uma exploração da guerra e dos seus horrores. É possível encontrar beleza no meio da morte e dos escombros – Smith, Capa, McCullin e Riboud fizeram-no –, mas fazer fotografias em que apenas a beleza conta é o mesmo que nada. É uma demonstração da vaidade do fotojornalista e não informa, não comunica. Fotografias assim não são de reportagem, não têm conteúdo.

E não têm força. As fotografias de Koudelka da invasão de Praga e as do Vietname de Riboud têm força. Exprimem ideias fortíssimas, a mais importante das quais a de que a violência é sempre absurda e gratuita. Não vejo esta força que advém das ideias nas fotografias de reportagem de hoje. Ou se baseiam na estética ou são meros documentos literais.

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Não consigo deixar de sentir que, a cada notícia da morte de fotógrafos como Marc Riboud, a fotografia vai ficando mais próxima da banalização total. É como se a fotografia fosse perdendo os seus heróis e não houvesse ninguém para lhes dar continuidade. Espero que os Alec Soth deste mundo sirvam de seguidores, porque a boa fotografia de reportagem não pode desaparecer.

M. V. M.

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