Puritanismo

Há um fenómeno na internet que me preocupa. Não, não é o Pokémon Go nem as selfies nem as fotos de comida no facebook: é algo bem mais vasto. É a proliferação de uma mentalidade beata e hipócrita que me parece perigosa por obstruir a liberdade de expressão.

É verdade: há muita coisa que, aparentemente, não se pode escrever. Não se pode ser cáustico, irónico, sarcástico, sardónico, satírico, porque há quem fique ofendido. Também, por maioria de razão, não se pode usar uma linguagem mais, digamos, livre, porque pode ser lesivo e insultuoso. Não, não me estou a referir ao «politicamente correcto»: embora tenha as mesmas raízes e motivações, isto a que me refiro vai muito mais longe no condicionamento e restrição de comportamentos.

Isto tem uma explicação simples, que é a prevalência de uma mentalidade puritana nos Estados Unidos em consequência da influência das seitas evangélicas e da sua interpretação literal da Bíblia. Esta influência perniciosa é, por seu turno, determinada por uma comunicação social dominada, em grande parte, pelos sectores conservadores que controlam a indústria da comunicação. Estes sectores não são, de forma alguma, apoiados pela maioria, mas a sua influência faz-se notar em todo o mundo por os Estados Unidos serem os grandes beneficiários da globalização.

Apesar de aqui em Portugal ainda não estarmos completamente submetidos a esta mentalidade, ela está a alastrar. O mínimo desvio a esta ortodoxia é interpretado como ofensivo. Não há lugar para a liberdade de expressão neste mundo puritano. Pior ainda, a influência deste puritanismo é de tal ordem que pré-condiciona quem escreve na internet. Aliás, não devo restringir isto à internet: são frequentes as transmissões televisivas em que mesmo palavras comuns como bullshit são disfarçadas por um sinal sonoro. Contudo, sendo a internet tão universal, surpreende que este puritanismo seja tão forte que consiga impor-se.

Por que acho isto perigoso? Em primeiro lugar, devo dizer que me considero suficientemente são da cabeça para não ver aqui um tentáculo de alguma conspiração tenebrosa para dominar o mundo. O que eu vejo é tão simples como isto: a prevalência de uma mentalidade puritana e profundamente castradora. Não menciono a influência dos Estados Unidos por considerar este país O Grande Satã ou o Império do Mal, mas pela sua influência na cultura mundial. Há decerto muitos norte-americanos que concordam comigo. O perigo que pressinto nisto é a censura do livre pensamento. É que a opressão puritana não se manifesta apenas em questões de linguagem, não se limitando a obstar à liberdade de expressão: ela condiciona também a liberdade de pensamento. E tem outro efeito perverso, que é o de alguns cibernautas se sentirem no direito de se arvorar em vigilantes, em guardiães ex officio da moral puritana, e se arrogarem uma superioridade moral que não é mais que o resultado de a sua mente estar formatada para ser conforme às regras do puritanismo, sendo-lhes estranho o valor da liberdade (de pensamento e de expressão.

Eu gostava muito de poder dizer que não reconheço as regras não escritas deste codex puritano e que me exprimo livremente, mas sinto-me condicionado por estar num website de alojamento norte-americano. Eu hesito antes de publicar palavras tão comuns como «merda», porque pode alguém pensar que sou um carroceiro; penso muitas vezes antes de fotografar crianças, não vá alguém imaginar que sou um pervertido (eu ia escrever «um pervertido sexual», mas o uso deste último adjectivo pode ser considerado ofensivo).

Francamente, estou um bocado cansado disto. O puritanismo não é saudável e limita o pensamento. Há sectores conservadores que rejeitam as teorias evolucionistas e tentam impor o criacionismo. Isto é retrógrado, primário e obscurantista. Espero que esta influência perversa acabe rapidamente.

Já agora, não resisto a narrar um pequeno episódio que presenciei no Sábado, na rua onde vivo. Um jovem passeava o seu cão e cruzou-se com uma amiga que, além de uma cadela, se fazia acompanhar por um rapazinho dos seus nove anos. Os cães desataram a farejar-se um ao outro, como é habitual entre cães. O rapazinho encontrou rapidamente uma explicação para o farejamento canino: «quer ir-lhe ao pito», exclamou ele, tão alto que ouvi distintamente no passeio oposto. Se até eu corei, que pensaria disto um pastor evangélico republicano norte-americano?

M. V. M.

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2 thoughts on “Puritanismo”

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