A Família do Homem

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O texto de hoje era para ser sobre a Canon 5D Mk IV e os disparates dos consumidores que levam a que as câmaras sejam cada vez mais carregadas com tecnologias que só servem para encarecê-las, mas este assunto vai ficar numa gaveta recheada de teias de aranha e bolores e não vai ser publicado. Por duas razões: a primeira é não me apetecer escrever um texto amargo e pessimista sobre coisas que não valem a pena. A outra é a contrapartida da primeira: prefiro escrever sobre o lado mais brilhante e glorioso da fotografia, que é a sua componente artística.

No final do Século XIX e primeira década do seguinte, a fotografia era ainda uma raridade. Os instrumentos eram rudimentares e o seu manejo era reservado a quem fazia da fotografia a sua ocupação. Os fotógrafos dessa época estavam a par com os pintores e escultores: frequentavam os mesmos círculos e a sua reputação era em tudo semelhante à dos artistas. Na verdade, ao ver fotografias de dessa época, por vezes tem-se a impressão de que os seus autores não pretendiam autonomizar a fotografia enquanto forma de arte, mas erigi-la como substituta da pintura: a linguagem estética é a mesma e as técnicas (como o uso de lentes pouco nítidas) pareciam um esforço para que a pintura e a fotografia convergissem. (Mais tarde Alvin Langdon Coburn aproximaria ainda mais a fotografia das formas de expressão usadas pelos pintores da primeira metade do Século XX com as suas «vortografias».)

Nos Estados Unidos, o maior desses artistas que eram os fotógrafos da transição dos séculos era Alfred Stieglitz. Todos conhecemos os seus retratos de Georgia O’Keeffe. Quando Stieglitz era já um fotógrafo e galerista estabelecido e reputado, um jovem emigrante luxemburguês de nome Édouard Jean travou conhecimento com ele. Édouard Jean Steichen, que em breve se tornaria Edward Steichen (embora mantendo a nacionalidade luxemburguesa), foi, além de um fotógrafo com enorme procura, um cultivador das artes plásticas, tendo-se dedicado à pintura. Além de ser frequentemente exposto pelo amigo Alfred Stieglitz nas galerias que este último inaugurou, foi também ele curador de exposições.

Em 1955, Edward Steichen era o director do departamento de fotografia do MoMA (Museum of Modern Art) de Nova Iorque. Resolveu, nesse ano, organizar uma exposição que seria o ponto mais alto da sua carreira de galerista, curador e patrono da fotografia. A exposição foi intitulada The Family of Man, exibiu quinhentas e três fotografias (de um espólio de mais de dois milhões) de duzentos e setenta e três fotógrafos, oriundos de sessenta e oito países. Foi a maior e mais ambiciosa exposição de sempre. O seu objectivo foi o de, nas palavras do próprio Steichen, «explicar o homem ao homem» (homem como espécie, não como género).

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Por Alfred Eisenstaedt

A exposição foi, de facto, portentosa. Alguns criticaram-na: Roland Barthes, cujas opiniões em matéria de fotografia assumem foros de doutrina, afirmou que a a exposição era a construção de um mito, o produto de um humanismo convencional em que toda a gente nasce e morre da mesma maneira, humanismo esse que nada diz a ninguém. Walker Evans foi outro dos críticos, embora neste caso o facto de nenhuma das suas fotografias ter figurado na exposição poder, eventualmente, ter contribuído para o seu juízo negativo.

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Por Toni Frissell

The Family of Man impressiona, não apenas pelos números colossais, mas pela qualidade dos fotógrafos expostos. O primeiro fotógrafo relevante do Século XX de cujo nome o leitor se conseguir lembrar esteve certamente representado nesta exposição. Henri Cartier-Bresson, W. Eugene Smith, Werner Bischof, Robert Frank, Dorothea Lange, Margaret Bourke-White, Ernst Haas e o próprio Steichen – o difícil é descobrir um fotógrafo de obra significativa que não tenha sido exposto em The Family of Man.  (Já agora, a fotografia fabulosa no topo do texto é de Garry Winogrand, fotógrafo por quem o meu entusiasmo já foi maior mas que não deixou de fazer algumas obras-primas.)

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Por Elliott Erwitt

A exposição percorreu diversos países e foi escolhida pela UNESCO para integrar o Registo da Memória do Mundo. Hoje está em exibição permanente no Castelo de Clervaux, no Luxemburgo. Aqui está uma daquelas coisas a fazer antes de se morrer: depois de visitar esta exposição, presumo que se pode dizer que já se viu tudo o que valia a pena ver – pelo menos em matéria de fotografia.

M. V. M.

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