Smartphones e outras coisas

Ontem, 18 de Agosto, aconteceu uma daquelas luas cheias gigantescas que ocorrem uma vez em cada cinco anos. O satélite natural do planeta Terra aparecia tão grande que quase parecia poder-se tocá-lo. Estando a passear à beira-rio com dois amigos munidos de smartphones, era uma fatalidade que eles decidissem fotografar aquela lua enorme e amarela, pendurada no céu como um queijo monstruoso.

Evidentemente, as fotografias ficaram uma rica trampa. Tremidas, com a lua reduzida a um ponto minúsculo, borratado e branco, com uns céus azul-ganga como resultado do péssimo equilíbrio dos brancos. Um dos meus amigos teve dificuldades porque o telemóvel se recusou a focar. Passou-se quase um minuto até que o aparelhinho dito inteligente condescendesse em fazer o que o proprietário mandara e finalmente mostrasse as linhazinhas brancas da focagem automática. A perspectiva, essa, era ridícula: se eles queriam fotografar a lua pelo tamanho descomunal com que se apresentava nessa noite, tiveram uma desilusão ainda maior que a dimensão do astro. E aqueles sensores do tamanho da cabeça de um prego encarregaram-se de estourar a luz da lua, que deixou de ser amarela para se tornar num branco fluorescente.

Adiante. No dia seguinte, depois de  pensar no assunto muito seriamente ao longo das últimas semanas, resolvi mudar de tarifário do meu telemóvel. Concluí que estava a impedir-me de fazer chamadas por causa de um tarifário pré-pago antiquado que me consumia trinta cêntimos por minuto. Dirigi-me a uma loja do meu operador e, depois de assinar um contrato que quase rivalizava com um volume da Encyclopaedia Britannica, resolvi indagar preços de smartphones. O meu telemóvel tem sete anos de bons e leais serviços e não mostra quaisquer sinais de mau funcionamento, mas a despeito de uns rudimentos de conectividade não é um smartphone verdadeiro e próprio. Ligar à internet é impossível porque não tem um sistema operativo decente. Nos dias que correm nunca se sabe quando vai ser necessário aceder à internet, pelo que ter um aparelho no bolso que permita essa ligação é uma boa ideia.

Curiosamente, o empregado pareceu dar uma importância desmesurada à câmara de cada um dos telemóveis (perdão: smartphones) que ia sugerindo. A certa altura já ele tergiversava acerca dos megapixéis da câmara traseira e da frontal; vi-me forçado a encarrilar a conversa e chamá-lo à realidade: eu queria um telefone, as aptidões fotográficas não me interessavam. (Especialmente depois de ver os fracassos fotográficos dos meus amigos na noite anterior.) Nesse momento o jovem usou o tipo de argumento que pode ser lido nos fóruns de fotografia: que era bom ter uma câmara sempre à mão porque nunca se sabe quando a oportunidade de fazer uma boa fotografia vai aparecer.

E pronto. Fiquei mais rico. Aprendi que aquela treta (sobre a qual tinha jurado não voltar a escrever) de a melhor câmara ser a que temos connosco é, afinal, conversa de vendedor de telemóveis (perdão: de smartphones). Eu bem sabia que existia uma razão ponderosa para não levar aquele argumento a sério. As câmaras dos smartphones não têm qualidade e são lentas e erráticas. Que me importa capturar aquele momento se a fotografia vai ficar uma bosta – no caso de conseguir sequer tirá-la? No que respeita à lua gigante, qual era o interesse de fotografá-la? Ficar como recordação não era com certeza. Partilhá-la no facebook? No momento em que a descarregasse, quantas dessas fotografias não estariam já a ser vistas?

Decididamente, não tenho qualquer interesse em usar um telemóvel (perdão: smartphone) para fotografar. Eu não vou morrer, nem ter um ataque cardíaco ou ser abandonado por toda a gente se não tirar fotografias de tudo o que vejo à minha frente. Apenas quero fazer fotografias que valham a pena – e, de preferência, com um módico de qualidade. Por vezes é melhor e mais bonito ver as coisas que fotografá-las.

O que um telemóvel que eu venha eventualmente a adquirir não vai certamente fazer é servir para caçar Pokémons. Todas as noites o jardim do Passeio Alegre (aqui no Porto) é infestado por jogadores de Pokémon Go. Francamente – é possível conceber coisa mais estúpida que o este jogo? Centenas de pessoas concentradas em lugares públicos com o nariz enfiado no ecrã de um smartphone? Poupem-me!

M. V. M.

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