Compreender

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Todas as artes se renovam. Há nelas como uma necessidade de evoluir, de constantemente transgredir os limites que se vão solidificando à medida que os gostos se estabelecem. Isto chama-se, provavelmente, inconformismo – e é o motor que faz com que a arte (tal como o conhecimento científico e outros domínios) progrida e se transforme em permanência.

Este movimento é vital para as artes. Naturalmente, a solidificação dos gostos (ou talvez seja uma sedimentação) implica que exista sempre alguma resistência às mudanças nos cânones estéticos. Depois de o rosto humano ter sido descrito com precisão – apenas variando a nitidez do traço, i. e. a técnica – chegaram os cubistas e desconstruíram as suas formas; tendo sido sempre composto na escala cromática, o Jazz foi revolucionado quando Thelonious Monk usou a escala diatónica. August Strindberg e Samuel Beckett introduziram temas estranhos e incompreensíveis no teatro, Kafka transformou um homem num insecto gigantesco. Em qualquer dos casos, as artes evoluíram e foram criadas novas formas de expressão.

Estas evoluções nunca deixaram de ter oposição. Alguns dos exemplos acima foram drásticos e revolucionários, mas houve outras renovações mais subtis, também elas acompanhadas de resistência dos gostos que se implementaram. Aconteceu assim quando Beethoven decidiu abandonar as influências de Haydn e Mozart, ou quando Seurat introduziu o pontilhismo na pintura.

A comoção que estas mudanças trouxeram aconteceu porque confrontaram as correntes estéticas existentes. É fácil, ao crítico acomodado, ridicularizar os desvios em relação aos padrões tradicionais; muito mais difícil é assumir que essas mudanças não aconteceram por mera zombaria ou desrespeito e foram introduzidas por artistas que dominavam na perfeição as suas artes. Numa palavra, o que é difícil é compreender o que estas novas correntes pretendiam exprimir. Uma vez ultrapassada esta barreira, a estética pode ser discutida, mas não a validade dos conceitos introduzidos, ou o seu lugar na arte.

Deste modo, é importante compreender o que um artista aparentemente desinserido pretende dizer. Tudo isto ocorreu-me ontem à noite, depois de ver um pequeno documentário na TV. O documentário pertence a uma série chamada Contacto, produzida pela Magnum, e o tema do episódio de ontem era a obra de um dos fotógrafos mais incompreendidos de sempre – Bruce Gilden.

É muito fácil criticar as fotografias de Bruce Gilden: os enquadramentos nem sempre são os melhores, as caras são distorcidas pelo uso de lentes de distância focal curta, a iluminação é demasiado crua (Bruce Gilden costumava fotografar com a câmara numa mão e um flash na outra) e os conteúdos são, por regra, desconfortáveis: rostos feios, macerados e desgastados pelo tempo e pelas agruras da vida, figuras grotescas e marginais a cuja visão a maior parte de nós é geralmente poupada. É bem mais fácil criticar estas características das fotografias de Bruce Gilden do que tentar entender o que ele quis dizer com elas.

E o que ele quis foi exprimir a diversidade da vida na rua. Atraíram-no sempre o exótico, o incomum, o extravagante, o anormal (se posso exprimir-me assim). Não há, na fotografia de Gilden, lugar para o cliché, para o género de fotografia que visa agradar a toda a gente (o que é sempre um esforço estúpido, já que nem todos gostam das mesmas coisas).

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Um caso exemplar é o das fotografias de orientais. Eu via aquelas fotografias sem as entender: gente estranhamente vestida, gente tatuada, homens servilmente acendendo os cigarros de outros, poses bélicas e estranhas (a estranheza é recorrente em Bruce Gilden) – e tudo isto em fotografias que são close-ups tão reais que se tornam desconfortáveis de ver. O que eu não sabia – e fiquei a sabê-lo ontem – é que estas fotografias são da Yakuza, equivalente japonês da Máfia.

De repente compreendi aquelas fotografias e vi-as com olhos renovados. Tudo fez sentido, tudo encaixou onde devia. Se fiquei a gostar delas? São fotografias que transcendem a mera estética. É possível que o público não entenda como uma fotografia pode ser desligada da estética, mas as fotografias de Bruce Gilden contam histórias. O seu interesse é este, a sua beleza está em vermos através delas o mundo que Bruce Gilden viu.

Quem não entender isto não pode ter a menor apreciação pelas fotografias de Gilden. Para quem limita a sua apreciação à estética, serão sempre fotografias de pessoas feias, feitas a distância curta com um flash apontado à cara delas. Contudo, são fotografias como as de Bruce Gilden que fazem evoluir a arte fotográfica.

M. V. M.

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