Guerras (a propósito do estilo dos textos do Número f/)

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Quando eu escrevo, torna-se-me inevitável cultivar um estilo próprio. (Na fotografia também sou assim, felizmente.) Além de ter cuidado com a gramática, a ortografia e a sintaxe – o que não significa que os erros não aconteçam –, procuro que os textos me saiam impregnados de metáforas, hipérboles e outros artifícios de estilo. Não sou assim por pedanteria, nem para mostrar que sou um erudito, mas o que é facto é que tenho uma profissão na qual escrever bem é mais que uma opção: é um imperativo. Além disto, deixei-me influenciar por um sem-número de escritores de ficção que vão desde Eça a Gonçalo M. Tavares, passando por Luiz Pacheco (que foi quem melhor tratou a língua portuguesa no Século XX). Não consigo desfazer-me deste acervo de influências quando escrevo seja o que for.

E tenho uma preocupação para com os leitores: faço por que os textos não sejam maçadores. O que explica que a linguagem seja tão leve e fluída quanto me é possível, mas também que recorra às metáforas e hipérboles a que aludi antes, com o intuito de tornar os textos mais leves (embora nunca levianos). Hélas, há aqui um problema ao qual permaneci mais ou menos alheio até há pouco: nem toda a gente que lê o Número f/ tem predisposição para interpretar os textos quando estes comportam certas expressões e recursos. É bem possível, até, que possa considerar que tenho sorte por as pessoas não interpretarem os textos em que equiparo o fotómetro a um tirano malvado que conspira para arruinar as fotografias como manifestações de decrepitude mental.

A explicação para esta divergência entre a reacção que espero dos leitores e a que estes – ou parte deles – demonstram é simples: quem vem aqui fá-lo à procura de uma linguagem directa e de um cariz predominantemente técnico. Deste modo, o uso de certos recursos com os quais pretendo ser sarcástico ou bem humorado pode ser mal entendido. É certo que há pessoas que têm uma capacidade especial de mal-entender tudo o que lêem, porque vêm à procura de confirmação (ou conformação) das suas próprias ideias e ficam frustradas quando isso não acontece, mas há também quem entenda que um blogue de fotografia não é lugar para metáforas e hipérboles.

Porquê? Se este é um blogue voltado para a fotografia enquanto forma de expressão artística, por que não posso usar recursos literários nos meus textos? Leitores apontaram-me que eu faço julgamentos, vejo guerras em tudo e que tomo partido nesses putativos conflitos bélicos, mas isto deve-se à sua falta de predisposição para ler as coisas para além do seu sentido literal (ou, o que é mais certo, a não esperarem as minhas formas de expressão num blogue sobre fotografia).

Entendamo-nos: quanto aos julgamentos, era só o que faltava se eu não pudesse exprimir as minhas opiniões no meu blogue! E, quando aludo às guerras (entre analógico e digital, entre câmaras mirrorless e DSLR, etc.) no Número f/, essa menção não significa que eu as veja como guerras, nem que seja dicotómico, ou que tome um dos lados de uma qualquer (suposta) trincheira. Simplesmente, tenho o mau hábito de frequentar um website de referência e ler os comentários que lá se escrevem. O que ali não falta é partisanos dispostos a morrer e a matar pela sua marca de equipamento favorita. Combatentes vestidos de branco e vermelho digladiam-se contra outros de farda preta e amarela, com palavras e números fazendo as vezes de espadas e baionetas; os millenials que abraçaram a causa do digital emboscam e atacam os hipsters que usam película, enquanto os jovens (pelo menos de espírito) que aderiram às mirrorless bombardeiam sistematicamente as posições dos velhos que, na sua senilidade, se arreigam a esses artifícios do passado que são os espelhos e os pentaprismas.

É evidente que estas não são guerras nenhumas. Nem sequer deviam ser motivos de discórdia, uma vez que são questões de gosto e preferência. Quanto ao M. V. M., que usa uma câmara mirrorless digital e uma SLR analógica com espelho e pentaprisma, a linguagem bélica é usada por mero sarcasmo. Na verdade, considero aquelas discussões ridículas. Quem lê o Número f/ com atenção sabe que não sinto senão desdém pelas diatribes sobre equipamento e que o que importa é as fotografias. Se há uma guerra na qual estou disposto a combater, não é decerto por uma marca ou um tipo de equipamento: é pela excelência, pela originalidade, pelo intuito criativo. Os meus inimigos nesta guerra imaginária são a vulgaridade e o plágio, a mediocridade e a imitação. Nunca me pareceu importante saber que câmaras usam Harry Gruyaert ou William Albert Allard, mas conhecer o maior número possível das suas fotografias pareceu-me sempre de uma importância inadiável.

É evidente que tenho pena que haja quem não tenha predisposição para entender certos recursos que uso nos meus textos, mas não vou mudar. Por um lado, penso que, se for sempre literal e directo, os meus textos se tornarão aborrecidos e iguais a muitos outros que se podem ler na internet; por outro, entendo que não sou eu quem tem de mudar: são os leitores. Se for eu a mudar, estarei a rebaixar os meus padrões; se os leitores se predispuserem a ler as coisas com mais subtileza, só terão a ganhar.

(Texto ilustrado por uma fotografia de W. Eugene Smith, o fotógrafo predilecto do autor)

M. V. M.

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3 thoughts on “Guerras (a propósito do estilo dos textos do Número f/)”

  1. M.V.M., Eu gosto de o ler (sim, provavelmente, isso pouco lhe interessa), continue com o seu estilo muito próprio e as hipérboles e as metáforas, e o sarcasmo e a ironia (que muito aprecio ler e, de seguida, sentir-me a sorrir, com determinada forma como transmite algumas ideias). A minha pena é não saber tanto de fotografia como gostaria, mas para alguma coisa me tem servido a leitura dos seus textos: aumenta e alimenta a minha curiosidade sobre os aspectos técnicos que aqui vão sendo referidos, alguns deles completamente desconhecidos para mim; sobre alguns fotógrafos dos quais não conhecia o trabalho e, por último, mas não menos importante, sobre os aspectos legais a ter em conta!

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