A excelência de Paulo Nozolino

http://imagens1.publico.pt/imagens.aspx/770141?tp=UH&db=IMAGENS&w=749
P. Nozolino por Rui Gaudêncio

Há um fotógrafo português contemporâneo cuja obra não pára de me intrigar. As minhas primeiras impressões, ao ver as suas fotografias, não foram as mais favoráveis; lembro-me mesmo de, num dado momento, tê-lo arrumado na prateleira dos «fotógrafos de mulheres nuas» – não por não apreciar mulheres nuas, mas adiante – e tê-lo esquecido.

Até ler uma entrevista com ele no ano passado, o que, conjuntamente com a aprendizagem que existiu entretanto, me fez olhar as fotografias dele com olhos de ver. O que me apercebi, quando vi aquelas fotografias a uma luz renovada, foi a obra de um fotógrafo que não está preso a convenções, nem fotografa para ser apreciado ou ter muitos seguidores. Ele fotografa para se exprimir e para mostrar – não por conceitos, mas por imagens reais – a maneira como os objectos e as pessoas o marcam. Ao invés de representar as suas impressões através de uma linguagem simbólica (como, por ex., Daniel Blaufuks), este fotógrafo a que me refiro transmite as suas ideias pela linguagem gráfica, habitualmente simples – de maneira a que o motivo domine a imagem e se entranhe na mente do espectador – e pela linguagem do preto-e-branco da película de alta velocidade, com o grão a construir atmosferas densas e por vezes opressivas.

O fotógrafo a que me tenho vindo a referir é Paulo Nozolino. Ele é praticamente desconhecido em Portugal – salvo por aqueles que realmente cultivam a fotografia – mas lá fora tem renome e reputação. O que não deixa de ser sintomático, mas estas são contas de outro rosário.

Que posso dizer sobre Paulo Nozolino? Afirmar que é um gigante da fotografia portuguesa é, obviamente, um exagero – porque, nesta comparação, ele faz com que os gigantes de súbito se tornem minúsculos. Paulo Nozolino é mais que um gigante: é um demiurgo, um prodígio, um portento da fotografia. Ninguém, em Portugal, fotografa como Paulo Nozolino. Ele e Daniel Blaufuks – a quem tenho de me referir, não por comparação, mas por ser a minha referência mais importante entre os portugueses – habitam universos onde só eles imperam, reduzindo tudo o resto a estilhaços. Sim, Paulo Nozolino é tudo isto – e muito mais. É um daqueles fotógrafos que faz com que me sinta ridículo com os meus patéticos esforços, mas é também como um deus das trevas. Quando digo «das trevas», não o faço com um sentido dúplice, e muito menos pejorativamente: digo-o porque ninguém, na tacanhez mediática que promove os pequenos e apouca os grandes, se lembra de lançar luz sobre a obra portentosa de Paulo Nozolino.

Naturalmente, quando se atinge a grandeza – a verdadeira, não a artificial –, deixa de ser importante querer-se ser notado. Faz-se aquilo que parece importante, sem necessidade de gritar para atrair atenção. O que é uma enorme liberdade: sem a obrigação de agradar às massas, só se fotografa o que se quer, o que se gosta. No caso de Paulo Nozolino, o que se ama. Ou não. Li, numa entrevista antiga, que ele só vê sentido em fotografar o que ama ou o que se odeia. Porque a fotografia de Paulo Nozolino é a forma que ele encontra de exprimir o que sente: o amor profundo por mulheres, a estranheza de lugares, o mistério de uma mão pendurada da janela de um comboio segurando um cigarro, a asfixia das reminiscências. É, em duas palavras, mostrar o seu mundo interior.

A fotografia mostra tanto dos motivos como de quem fotografa. Já o escrevi aqui e repeti-lo-ei sempre. Mostrar fotografias é, num certo sentido, uma temeridade, porque quem as vê também vê quem as fez. Elas são, ou devem ser, projecções do mundo interior do fotógrafo. No caso de Paulo Nozolino, vemos sobretudo alguém com uma vida interior rica, mas sempre marcada pelo negrume, por um pessimismo que se exprime na estética low key e no grão. A fotografia de Nozolino é pesada, escura, carregada; é daquelas fotografias que induzem desconforto, mas, uma vez tomado o tempo necessário para compreendê-las, elas tocam-nos de uma maneira que muito poucos fotógrafos conseguem. E este tocar alguém é, como sabemos, a parte mais difícil de fotografar. Não me refiro a meras sensações estéticas, de beleza: é fácil fazer fotografias belas. O que é difícil é fazer fotografias em que se mostra o universo interior e a maneira como o fotógrafo vê as coisas (o que, de novo, diz mais sobre o fotógrafo do que sobre o motivo).

E, evidentemente, há um factor que não não posso, sob pena de mentir, dizer que me é indiferente: Paulo Nozolino fotografa em película. Provavelmente porque é muito mais genuíno obter aqueles tons e grão com película, ou – o que é mais provável – por repulsa pelo digital e pela banalização que ele trouxe à fotografia. Como o compreendo!

M. V. M.

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