Efemérides

Escrevo estas linhas no dia 31 de Julho de 2016. Há dois dias 31 de Julho que tenho de assinalar: o de hoje e o do ano de 2010. O de hoje, porque perfaz seis meses desde que decidi deixar de fumar; o dia 31 de Julho de 2010 por ter sido o dia em que escolhi fazer da fotografia o meu hobby.

Começo por esta última data. Não houve uma decisão súbita e repentina de comprar uma câmara e começar a fotografar. Foi uma série de eventos que me determinou a fazê-lo. Em 2008 emprestaram-me uma Canon Ixus para fotografar um daqueles passeios pelo Porto com cicerone. Só vi essas fotografias uma vez, mas a dona da Canon Ixus asseverou-me que estavam boas. Curiosamente, além de algumas das paisagens melosas que o Júlio Couto mostrava aos excursionistas, lembro-me de ter fotografado um caixote do lixo coberto por graffiti, um Volkswagen Corrado vermelho que caíra nas mãos de um adepto do xuning (neologismo composto por xunga + tuning) e um gato que estava à janela de uma casa. Lembro-me também de ter sido criticado por ter feito tão poucas fotografias quanto podia ter feito «milhares» delas.

Dois anos depois dessa experiência com a Canon Ixus veio o meu conhecimento da pessoa e da obra de Fernando Aroso, aos quais já me referi aqui. Alguns meses mais tarde participei em acções de recolha de assinaturas para uma candidatura presidencial, passando várias horas na Rua de Santa Catarina. Apercebi-me da quantidade de pequenas histórias do quotidiano que aconteciam naquela rua, pedindo para ser fotografadas, e foi este o impulso final que me levou a, no dia 31 de Julho de 2010, ter comprado a minha primeira câmara (se descontarmos uma Agfa de bolso que me ofereceram quando tinha 13 anos e me convenceu que nunca seria capaz de fazer uma fotografia minimamente decente). Claro que, depois da experiência com a Ixus, a minha escolha foi uma compacta da Canon. Era mais barata que as Ixus, mas que importava? Era tudo dígitos, tudo uma questão de converter luz em linguagem binária, pelo que qualquer coisa servia. Além disto, dei por mim a fotografar tudo menos as cenas que via na rua, sobretudo por culpa das fotografias «perfeitas» que via na internet. Os disparates que se fazem quando se começa alguma coisa!

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Uma das minhas primeiras fotografias (1 de Agosto de 2010)

Penso que é sempre assim: aprender implica cometer erros e é dificultado por uma auto-apreciação que é, por regra, demasiado condescendente. No meu caso, embora a aprendizagem seja algo que nunca está completo, só aprendi a fotografar – não no aspecto técnico, mas no que é verdadeiramente relevante para a fotografia – depois de comprar a Olympus OM-2n. Foi esta máquina que me ensinou que cada fotografia é demasiado preciosa para ser desperdiçada e me levou a concentrar-me numa temática e num estilo. Estou ainda muito longe de onde quero chegar, mas penso que estou no bom caminho.

Agora algo completamente diferente, mas que devo também assinalar neste 31 de Julho: completei nesta data seis meses sem fumar. Para quem nunca fumou, pode parecer fácil deixar de fazê-lo. Também me parece fácil que um toxicodependente abandone as bases. Basta querer, não é? Não, nada disso. Não basta querer: é necessário lutar e estar preparado para uma luta que é longa e difícil. Ainda hoje, meio ano depois, sinto vontade de fumar; por vezes penso nesta privação como algo transitório, findo o qual voltarei a ter o prazer de fumar.

Tudo começou no dia 23 de Janeiro, quando uma dor violenta na zona das costelas flutuantes me levou ao hospital. Depois de analisar as radiografias, que agora são digitalizadas e colocadas no servidor dos hospitais e que, no meu caso, abrangeram uma parte substancial do tórax, o médico não se interessou grandemente pela dor de que me queixava, mas perguntou-me: «quando é que vai deixar de fumar?»

A pergunta foi feita de uma maneira que me preocupou. A comunicação verbal humana tem subtilezas destas. O médico não aconselhou, não ordenou ou advertiu, provavelmente por saber que seria contraproducente: apenas me fez sentir que tinha forçosamente – e urgentemente – de deixar de fumar. Dei-me uma semana para estar preparado; findos esses sete dias, parei o consumo de tabaco. Até hoje, não inalei o fumo de um único cigarro. Nem sequer uma passa. Sei que, se o fizer, terei perdido esta luta. Os benefícios são inúmeros, mas têm esta característica perversa de não se sentirem com a mesma intensidade que os sintomas de privação. A vontade de fumar, embora menos intensa do que no início, ainda se manifesta.

O meu conselho aos mais novos (se é que o Número f/ é lido por alguém com menos de, digamos, trinta e cinco anos): a melhor maneira de não ter de atravessar a provação que é deixar de fumar é não começar. Fumar pode parecer muito cool, mas não é nada cool ter os pulmões negros, nem ter dificuldade de respirar. E muito menos ser escravo de um vício.

M. V. M.

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