Em busca da excelência, partes 7, 8 e 9: a fotografia portuguesa do neo-realismo

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Fernando Taborda

Volto, ao fim de muito tempo, a escrever sobre fotógrafos portugueses de excelência. O último texto desta série (se não for demasiado pomposo chamar assim a este conjunto) foi sobre Artur Pastor, o que é uma coincidência interessante por assegurar uma continuidade temática com o texto que se segue.

Com efeito, apesar de Artur Pastor ser um fotógrafo difícil de integrar em qualquer movimento ou corrente artística, ele esteve (e o mesmo pode ser dito de Gérard Castello-Lopes), pela contemporaneidade e pelos temas, muito próximo da corrente artística que dominou a parte do meio do Século XX, que foi o neo-realismo (ou neorealismo: o que nunca vou é escrever «neorrealismo», como o Acordo Ortográfico nos tenta impingir).

O neo-realismo português, que superou as correntes do abstraccionismo e do surrealismo, tinha por tema e referência a realidade. Não qualquer realidade: porque esta corrente estava impregnada ideologicamente, a realidade tratada era a do povo. Os assuntos neo-realistas eram o trabalho e a vida quotidiana do povo, dos operários e camponeses em particular. O neo-realismo cedo chamou a si a denúncia da pobreza, do subdesenvolvimento e das condições de vida precárias das classes trabalhadoras no tempo da ditadura, o que teve por efeito, como seria previsível, que as obras dos seus autores fossem visadas pela censura, sendo por esta via remetidas a um relativo anonimato, mas a sua influência e importância foi tal que nem toda a repressão conseguiu anulá-las.

Se é possível apontar o autor neo-realista por excelência, ele há-de ser encontrado na literatura e chamava-se Alves Redol. Contudo – e com relevância para o Número f/ –, o neo-realismo teve também expressão nas artes plásticas e na fotografia. Entre os artistas plásticos do neo-realismo estão Júlio Pomar, Lima de Freitas e Cipriano Dourado, mas a fotografia não deixou de se integrar nesta corrente. As temáticas da fotografia neo-realista são as fábricas e os campos, recorrendo a uma linguagem estética vanguardista, abstracta – bem mais que na literatura e nas outras artes plásticas – e fortemente estilizada. E surpreendentemente boa. Aliás, excelente.

De entre os vários fotógrafos que se inseriram nesta corrente, os que mais me impressionaram foram três (daí este ser um texto que aglutina três partes): Augusto Cabrita, Eduardo Harrington Sena e Fernando Taborda. Outros nomes relevantes são Sena da Silva e Varela Pécurto, mas as fotografias que me causaram a impressão mais perene foram as dos três primeiros. O meu objectivo, com este texto, não é eleger os melhores fotógrafos neo-realistas – seria demasiada pretensão –, mas aqueles cujas fotografias me causaram a impressão mais profunda. Varela Pécurto e Sena da Silva não deixam de ser excelentes.

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Augusto Cabrita

Augusto Cabrita (1923-1993) foi cineasta além de fotógrafo. Nesta última actividade, foi um profissional reputado que contribuiu com as suas fotografias para as capas de álbuns de Amália, Luiz Goes e Carlos Paredes. Interessou-se por Portugal e pela forma como os portugueses viviam àquele tempo, inserindo-se deste modo nas temáticas do neo-realismo.

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Eduardo Harrington Sena

Eduardo Harrington Sena (1923-2007) era engenheiro de profissão, o que se manifesta nas suas fotografias. Foi também um importante animador da fotografia amadora, tendo constituído diversos grupos – um deles denominado «Foto-Clube 6×6» – e participado como jurado em inúmeros concursos de fotografia. Era um fotógrafo do rigor das formas, cuja estética se assemelhava, na temática e na austeridade formal, ao que faziam a esse tempo o casal Bernd e Hilla Becher, Hugo Schmölz ou Albert Renger-Patzsch.

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Fernando Taborda

Por fim, Fernando Taborda (1920-1991) – que é aquele, de todos os portugueses citados, de quem me sinto mais próximo. A sua contribuição para a corrente do neo-realismo é, possivelmente, menos relevante que a dos atrás citados, mas não deixou de ser significativa. As fotografias desta fase são minimalistas, exprimindo-se muitas vezes em pontos e linhas simples – e sempre com um contraste acentuado. Tudo isto concorre para a minha indisfarçada preferência por Fernando Taborda.

M. V. M.

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