Os equívocos das mirrorless (2)

O modo de visualização da imagem das mirrorless, através de um dispositivo electrónico, traz consigo um problema sério: como existe uma tomada de imagem constante – a imagem que se vê no ecrã ou visor electrónico é a que a lente projecta sobre o sensor –, o sensor está em funcionamento desde o momento em que se liga a câmara. O que produz sobreaquecimento, problema que não é desconhecido dos proprietários de uma Sony α7  mas também não me é estranho, já que, ao usar a minha mirrorless em exposições longas, tive inúmeros problemas com a invasão da imagem por pixéis brancos (hot pixels). As  reflex, cujos sensores só são atingidos pela luz no momento da exposição, não sofrem este problema.

O mesmo modo de visualização directa tem uma repercussão de ordem prática na duração da carga da bateria. Como o sensor está sempre em funcionamento, está permanentemente a ser atravessado por energia eléctrica, o que leva a que a carga da bateria se esgote mais rapidamente do que numa câmara reflex. O próprio funcionamento do ecrã ou visor electrónico consome energia, pelo que a duração da carga da bateria de uma câmara mirrorless é muito limitada.

Outro problema das mirrorless é a focagem automática. Nestas câmaras, a focagem funciona por detecção de contraste porque não há um espelho para direccionar a luz para aqueles sensores. Ora, mesmo se a detecção de contraste é mais exacta, é também mais lenta – a despeito dos progressos que têm sido feitos. Além disto, os sistemas de focagem automática baseados na detecção de contraste têm dificuldades em acompanhar objectos em movimento, especialmente se este último partir de um determinado ponto em frente à câmara e na direcção desta. Para contornar isto, inventaram um sistema em que a detecção de fase é introduzida no sensor através de lentes minúsculas colocadas sobre os diodos captores de luz, mas os problemas de arrastamento que referi a propósito da visualização no ecrã ou visor manifestam-se também aqui, reduzindo a utilidade prática do sistema. A detecção de fase das câmaras reflex funciona melhor porque a luz captada pelos sensores é a reflectida pelo espelho instantaneamente, o que torna tudo muito mais fiável. Hélas, as mirrorless caracterizam-se precisamente por não terem espelho.

Há mais. Embora a Olympus e a Panasonic, por serem pioneiras, tenham já uma colecção de lentes considerável para as suas mirrorless, as outras marcas parecem ter enormes limitações. As lentes para as Fuji XT e X-Pro são extremamente caras e, mesmo se permitem construir um sistema à sua volta, pode perguntar-se para que serve tamanho investimento se as câmaras são de uso limitado e, no caso especial desta marca, só produzem bons resultados se se fotografar em JPEG. A Sony tem uma oferta de lentes extremamente reduzida e as poucas lentes que existem são gigantescas ou absurdamente caras. Os proprietários das Sony α7 acabam, em regra, por comprar lentes de outros sistemas e montá-las por via de um adaptador.

As mirrorless são, deste modo, câmaras limitadas e um tanto frívolas. Curiosamente, apesar de serem apresentadas como o futuro da fotografia, baseiam-se em tecnologia bastante datada. O sistema de detecção de contraste e a visualização directa da imagem projectada no sensor são tecnologias que nasceram com as primeiras câmaras compactas, pelo que têm já mais de vinte anos. E o visor electrónico surgiu com as primeiras câmaras bridge, as quais também não são muito recentes. Apesar da tentativa de reescrever a história a que aludi no início, pela qual alguns pretendem fazer remontar o conceito mirrorless ao início do Século XX, as primeiras câmaras do género foram lançadas em 2009. Sete anos são, nos tempos que correm, uma eternidade. A tecnologia só pode ser considerada nova se nos chamarmos Matusalém.

Por tudo isto não surpreende que, apesar de as marcas insistirem e usarem «embaixadores» como o nosso Alfredo Cunha para transmitir a ideia de que as mirrorless são a preferência dos profissionais, estes últimos continuem a usar câmaras que os fanáticos das novas tecnologias consideram obsoletas. As mirrorless são ainda muito limitadas e, se chegarem a impor-se no futuro, será devido ao abaixamento dos padrões de exigência dos consumidores e não à sua superioridade intrínseca. As mirrorless não são mais do que sempre foram e nasceram para ser: câmaras compactas de lentes intermutáveis. O que é muito melhor do que compactas de lente fixa, mas não supera uma reflex decente em rapidez, robustez e praticabilidade.

M. V. M.

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