Conversa em dia

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Peço aos meus caros leitores que me desculpem por não publicar nada há tanto tempo. Há vários motivos para isso, mas nenhum deles é sentir desprezo por quem vem aqui ao Número f/. Nem sequer posso dizer que é uma fase de falta de inspiração por que estou a passar, porque tenho exposto rolos a uma velocidade alucinante, pelo menos segundo os meus critérios (é verdade: se não me controlasse, era um por semana). A verdadeira razão para não escrever é muito simples: não tenho tido nada para escrever. Não me têm surgido ideias para escrever, agora que atingi uma espécie de ascese fotográfica em que o equipamento deixou de interessar e a fotografia vê o seu estatuto de arte cada vez mais erodido.

Por outro lado, têm acontecido coisas que tornam a fotografia secundária e monopolizam os meus pensamentos. Não tenho interesse em desenvolvê-las aqui, porque são todas externas à fotografia e eu quero que os textos fora do tema sejam a excepção, não a regra. Em pouco mais de uma semana, testemunhei a estupidez e animalidade colectiva que se apoderou de alguns dos meus compatriotas por a selecção de futebol ser campeã da Europa; logo de seguida veio a novela das sanções da União Europeia pôs à prova o meu europeísmo; nesta Quinta-feira, presenciámos mais um episódio, não de terror, mas de horror, nas ruas de Nice; e, de Sexta para Sábado, tivemos um golpe de estado simulado para que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, reforçasse o seu poder: prendeu opositores militares, destituiu juízes, procuradores e secretários judiciais (porquê?) e quer alterar a Constituição turca e restaurar a pena de morte. E anda a União Europeia em negociações com este escroque para que a Turquia adira ao clube dos países europeus ricos. Ah – e, pelo meio, esse insecto, esse verme servil chamado José Manuel Durão Barroso, foi designado membro do conselho de administração do Goldman Sachs. Ou seja: depois de fazer de lacaio de libré dos invasores do Iraque em 2003, andou a espiar a União Europeia durante dez anos em favor do Goldman Sachs e do império americano. Agora recebeu a recompensa.

Como disse, não tenho interesse em desenvolver estes temas. Quanto aos fervores patrióticos da bola, apenas os refiro como curiosidade, porque o futebol não me interessa. Fiquei perplexo com a maneira como muitos foram para a internet insultar a França e os franceses (para estes adeptos não basta a vitória: é preciso rebaixar, humilhar e amesquinhar o adversário vencido), para depois irem todos lacrimosos para o facebook, chorando as vítimas de Nice e protestando a sua amizade e solidariedade para com elas – que eram, na sua grande maioria, francesas!

Curiosamente, estou a viver um período de enorme entusiasmo pela fotografia. Apesar de ser esparso no número de exposições por sessão, penso que finalmente me fixei numa temática, num estilo e numa estética. Apesar de ter passado anos a pensar o contrário, descobri que ser fiel a um tipo de fotografia não é limitativo nem castrador: pelo contrário, obriga a procurar a originalidade com mais afinco. Isto pode parecer contraditório – quanto mais não seja por haver uma redução do número de temáticas e, por essa via, se limitar as possibilidades fotográficas –, mas deixem-me explicar melhor:

Quando estamos circunscritos a um tema, atinge-se facilmente um ponto em que, na aparência, tudo está fotografado. Se fizermos fotografia de rua, podemos dar connosco a pensar que já percorremos todas as ruas que havia a percorrer; se fotografarmos paisagens, incorremos na ideia de que, quando se viu determinado tipo de paisagem, viram-se todas. Ora, isto não é verdade. Se nos concentrarmos numa temática, a sensação de que está tudo visto (que, em parte, é verdadeira, mas só se insistirmos em fazer sempre tudo igual) tem o efeito de nos forçar a procurar formas novas de ver as coisas e de exprimir o que se vê. Deste modo, a ideia de que tudo já foi fotografado é falsa – ou melhor: pode ser verdadeira, no sentido em que já fotografámos determinadas coisas, mas cabe-nos descobrir maneiras de vê-las de modo diferente. Nesta acepção, a especialização (chamemos-lhe assim) pode ser surpreendentemente fecunda.

Por fim – e voltando a sair do tema –, esta semana descobri a canção mais divertida e hilariante desde I’m Considering a Move To Memphis: Chama-se Frankie Sinatra e é de uns australianos chamados The Avalanches. Se não acreditam em mim, vejam com os vossos olhos (e ouçam com os vossos ouvidos):

M. V. M.

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