O Brexit e eu (continuação)

O «Brexit» foi o resultado de uma intriga política em que a estupidez, a ingenuidade e a imundície estiveram claramente representadas pelos seus intervenientes principais. Para apaziguar alguns membros do Partido Conservador que estavam a minar as suas ambições, bem como para procurar esvaziar a retórica anti-europeia com que o UKIP do repugnante Nigel Farage se apresentava nas últimas eleições do Reino Unido, David Cameron teve a ideia brilhante de se comprometer a realizar um referendo sobre a permanência ou saída do Reino Unido da União Europeia. Os conservadores favoráveis à saída tinham um líder em Michael Gove (na imagem acima), ministro da justiça do Reino Unido, e eram em número considerável, o que Gove usou para exercer influência dentro do Partido Conservador. Por ser uma figura completamente falha de carácter e de popularidade, Michael Gove usou como testa-de-ferro do seu plano de ascensão política um indivíduo particularmente ridículo, mas muito popular, chamado Boris Johnson, que é a versão britânica de Donald Trump. O pobre idiota do Boris Johnson convenceu-se que, se o Leave ganhasse, teria o apoio de Michael Gove para concorrer ao posto de presidente dos tories se Cameron se demitisse, como aliás veio a acontecer, e ser o putativo Primeiro-Ministro no caso de eleições antecipadas. Contudo, esta semana Michael Gove veio a público, como crápula perfeito que é, declarar que Boris Johnson não tinha aptidões para ser um bom Primeiro-Ministro. Johnson, depois de perceber que tinha sido usado, ludibriado e traído, renunciou à candidatura a presidente dos conservadores, mas Michael Gove, evidentemente, ficou e é candidato a líder dos tories (resta saber se alguém, além dele mesmo, vai votar nele).

O próprio Cameron foi usado por Michael Gove em prol das suas ambições inconfessáveis. Com a sua iniciativa canhestra, pela qual procurou o apoio dos muitos conservadores que queriam a saída da União Europeia, deitou tudo a perder. E, para ganhar as eleições roubando os votos do UKIP, retirou o Reino Unido da União. A sua estratégia foi um tiro que lhe saiu pela culatra. Mesmo se agora quer incumbir noutro o encargo de formalizar a saída do Reino Unido, Cameron ficará para sempre com o estigma de ter lançado uma crise de proporções mundiais e de, potencialmente, ter posto um fim à União Europeia. Sim, porque não tenho dúvidas que os referendos se vão multiplicar – ou, mesmo que isto não aconteça, os partidos de extrema-direita radical e anti-europeus vão ganhar força graças à estratégia asinina de David Cameron. Pode acontecer já na repetição das eleições para o Presidente da República na Áustria, onde o Tribunal Constitucional deu razão ao candidato de extrema-direita Norbert Hofer e anulou as eleições de 22 de Maio, que o verde Van der Bellen havia vencido por um punhado de votos, e estender-se à França e à Itália. Eles já estão na Hungria e na Polónia e vão sem dúvida ganhar força no Norte da Europa à custa de uma retórica racista e xenófoba.

Eu não tenho grandes problemas com a saída do Reino Unido da União Europeia. O Reino Unido passou os últimos quarenta e três anos a sabotar a Comunidade Económica Europeia, obtendo um estatuto em que tinha todos os direitos e quase nenhuma das obrigações dos Estados-Membros – o Reino Unido está dispensado, por exemplo, de contribuir para os planos de ajuda financeira a outros Estados-Membros, embora estes últimos sejam obrigados a participar nos custos de um hipotético plano de ajuda ao Reino Unido –, e agora, por questões que só por uma distorção grosseira têm que ver com o funcionamento da União, vai abandoná-la. Evidentemente, o que vai acontecer depois do «Brexit» (eu não sei se já mencionei que gostava de enforcar a criatura que inventou este neologismo) é a celebração de tratados entre a União Europeia e o Reino Unido que equipararão este último a um Estado-Membro, pelo que nada mudará substancialmente, a não ser regressar a obrigação de ter passaporte para entrar em território britânico (ou no que sobrar dele depois desta crise). Mas entretanto terá havido mais uma crise mundial. Porque, sendo os especuladores o que são, não vão deixar de aproveitar para sabotar um pouco mais o Euro e as economias da União Europeia. Aliás, já está a acontecer, com a desvalorização da Libra, a perda de cotações nas bolsas e a descida do Reino Unido nas notações das agências de rating. Os países ditos «periféricos» da União Europeia – Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha – vão muito provavelmente ser vítimas de ataques especulativos, com o intuito de abalar a economia da União e destruir o Euro

Por muito sério que isto seja, porém, há outro factor no meio desta confusão gerada pela imbecilidade política de David Cameron que me assusta acima de todos os outros: a possibilidade de fragmentação da Europa. Tenho receio que, com uma Europa dividida em pequenos feudos por acção dos nacionalismos, se fique mais perto de uma nova guerra. E tudo isto pode piorar se os americanos forem acometidos de demência colectiva e escolherem Donald Trump como seu presidente. Esta ideia é assustadora, mas o «Brexit» também era improvável e aconteceu. Ora, Donald Trump não me parece do género de intervir para pôr fim a uma guerra mundial. Convenhamos que ele não é nenhum Eisenhower. É de temer o pior. É evidente que estou a imaginar um cenário muito pessimista, mas nada disto é impossível. A I Guerra Mundial começou por muito menos do que isto.

No fundo, isto apenas demonstra o que a tacanhez, a falta de visão e a mediocridade estratégica da classe política actual podem causar. Cameron pode ter tido vistas curtas e ter sido incapaz de antever o que poderia acontecer com a saída do Reino Unido – provavelmente a sua ambição cegou-o –, mas o facto de pessoas como Wolfgang Schäuble e Jeroen Dijsselbloem serem proeminentes nas políticas europeias leva a que muitos se sintam descontentes com a União Europeia dos dias de hoje. Contudo, a solução não é sair, nem acabar com ela. É melhorá-la. Só os povos podem fazê-lo, com o seu voto. Hélas, o «Brexit» mostrou mais uma vez que os povos respondem favoravelmente às mensagens que propagam o ódio. Não sei como isto vai acabar, mas sei que David Cameron abriu a caixa de Pandora (ou, como se diz para aqueles lados, a can of worms).

M. V. M.

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