Ninguém quer saber

Ted Forbes. Este nome diz-vos alguma coisa? Se responderam não, podem ser mais sensatos do que eu: é sinal que não gastam tanto tempo como eu a ver vídeos no You Tube. Não que veja muitos, na verdade, mas este Ted Forbes é uma presença ubíqua. Sempre que me proponho ver um vídeo sobre fotografia, aparecem de imediato sugestões de vídeo do canal de Ted Forbes, The Art Of Photography. Interessa-vos a Rolleiflex ou a Hasselblad 500 C-M? Ted Forbes publicou vídeos sobre estas câmaras. E sobre películas. E lentes. Aposto que existem vídeos sobre o Rodinal e o C-41 no canal The Art Of Photography.

O vídeo que proponho aqui nada tem que ver com equipamento – ou, se tem, é de uma forma muito indirecta. É mais sobre a overdose de fotografia dos nossos dias. Há tanta gente a fotografar que cada um de nós é apenas mais um – uma parte ínfima de uma massa imensa, informe e indistinta.

Eu concordo. Apesar de ter um número simpático de seguidores no Flickr e um número de visualizações diárias que se mantém acima de patamares interessantes, a verdade é que não são fotografias importantes. São coisas que faço por diversão, nada mais. São apenas mais algumas fotografias lançadas para um monte delas. Não vão mudar o mundo, não vão revolucionar a fotografia.

Refiro o meu próprio exemplo precisamente por não ser um dos que mais contribui para a overdose de fotografia que está a sufocá-la. Há pessoas que entendem que têm de fotografar tudo o que vêem (e, depois de o terem feito, fotografam-se a elas mesmas).  Estas pessoas inundam a internet de fotografias. Não o fazem por entenderem que é importante fotografar, mas porque sim. Porque têm um aparelho sempre com elas que lhes possibilita estar permanentemente a tirar fotografias de tudo. É ver estas pessoas nos concertos, de telemóveis ao alto, a impedir a visão de que está atrás delas; é vê-las a fotografar-se a si mesmas, com os seus «paus», diante de monumentos que toda a gente conhece; é ver as fotografias de bolos de aniversário, de jantares de grupo, e todas as selfies que os papás tiram com os meninos e que logo a seguir os meninos pedem aos papás para tirarem. (Estas últimas poderiam ser giras, se não servissem apenas para a diversão do momento e não fossem esquecidas dois segundos depois de as verem.) Tudo fotografias que não servem para nada nem interessam a ninguém.

Não é de exigir àquelas pessoas que pensem no que estão a fazer à fotografia, porque nunca o farão. Nem, de resto, entenderiam o que estariam a ouvir se alguém lhes pedisse para pensarem no que estão a fazer à fotografia, mas o que é certo é que estão a banalizá-la. Não sei quantas vezes já escrevi isto aqui, mas os telemóveis transformaram a fotografia num travesti de si mesma ao tornarem a fotografia efémera quando ela deveria servir para registar momentos efémeros, o que é o grande paradoxo que a fotografia vive hoje.

Isto é mais ou menos natural, se atendermos a que toda a gente tem na mão um dispositivo que lhes possibilita fotografar e filmar sem qualquer custo ou dificuldade. O inconveniente é que, com tantas fotografias a ser mostradas a cada segundo que passa, estas deixam de ter qualquer relevância e a fotografia em si se torna, por arrastamento, num fenómeno sem importância. As fotografias deixam de ter significado porque não são tiradas para terem um significado. Esse significado até não tinha de ser nada de profundo e transcendente: bastava ser a fixação de um momento importante na vida das pessoas, digno de ser recordado mais tarde (sim, como no anúncio televisivo da Kodak), mas agora nem para isso servem.

A questão é que hoje se fotografa tudo. O facebook veio criar a ilusão de que vivemos rodeados de amigos que querem saber tudo sobre as nossas vidas e o que estamos a fazer em cada momento. E, como escrever pode ser muito problemático para a maioria das pessoas, não se escreve: mostram-se fotografias.

E é precisamente esta aptidão da internet para divulgar fotografias que está a matar a vertente artística da fotografia. Precisamente por hoje ser tão fácil fotografar e divulgar fotografias, são às centenas de milhares as pessoas que têm pretensões de fazer fotografia artística. De pouco importa que não tenham qualquer conhecimento de fotografia: imitam o que vêem na internet (sobretudo se for de «fotógrafos» de renome, entendendo-se como tal os que têm mais likes no facebook) e está feito. Obviamente, ninguém quer saber dessas fotografias para nada, o que pode causar alguma perplexidade nos seus autores mas se justifica facilmente: são apenas mais fotografias. Mais fotografias a juntar à imensidão de fotografias, como se despejassem grãos de areia numa praia. Ninguém se importa, ninguém quer saber.

Concordo com Ted Forbes quando diz que isto não significa que a fotografia tenha deixado de ser necessária, tal como as outras artes o são, e que a fotografia precisa, para que possa perdurar além da banalização dos nossos dias, de ter um sentido, que seja importante e tenha algo de novo a dizer. Eu não acredito que tudo já tenha sido dito, tal como não acredito que já se tenha composto, escrito e pintado tudo. No dia em que acreditar, desinteressar-me-ei pela fotografia. E por todas as formas de expressão artística.

M. V. M.

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