Dave Heath (1931-2016)

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Este ano está a ser terrível: já nos deixaram Kurt Masur, Pierrre Boulez, David Bowie, Natalie Cole, Prince, Harper Lee, Alan Rickman e Muhammad Ali, entre outros. Na fotografia, no espaço de uma semana ficámos sem três fotógrafos relevantes. Fan Ho, como os leitores do Número f/ já sabem; depois foi Bill Cunningham, com cujas fotografias nunca consegui criar empatia, e mais tarde Dave Heath, um fotógrafo relativamente – e muito injustamente – desconhecido. A prova é que até eu o desconhecia. (Não, nada disso: a minha erudição é ainda muito limitada e lacunar, o que explica que só me familiarize com alguns fotógrafos depois da notícia da sua morte.)

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Dave Heath era um fotógrafo de excepção. Que tenha ficado na sombra de Bill Cunningham nada significa: é apenas mais um sinal de como as preferências do vulgo são  superficiais e guiadas pela histrionia do fotógrafo, tal como Raghubir Singh ser menos reputado que Steve McCurry. Ver fotografias de Dave Heath é um prazer para quem, como eu, cultiva o preto e branco, mas aquelas têm algo que me tocou de imediato. Não é a estética em si, que de resto é belíssima, nem as temáticas, a despeito de serem invariavelmente interessantes: é algo muito diferente. É os tons das suas fotografias.

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A maior parte das fotografias de Dave Heath tem tonalidades perfeitas – pelo menos segundo os meus gostos. O contraste é menos pronunciado, mas mais natural que aquele que Ray K. Metzker empregou: digamos que está no ponto certo. As sombras são em regra carregadas, mas nunca demasiado pesadas nem tão pronunciadas que escondam elementos importantes. Mas o que me fascina, nas fotografias de Dave Heath, é as altas luzes. Eu já escrevi aqui – não me lembro quando, por isso não há hiperligação – que nada consegue imitar as altas luzes das boas películas de preto e branco. Dave Heath é, até agora, a melhor prova dessa beleza enorme que vejo nas altas luzes argênteas. Especialmente quando iluminam rostos. Digo bem: «iluminam»: com o seu domínio das altas luzes, Dave Heath tinha uma maneira muito especial de fazer sobressair os rostos (e outros motivos) dos respectivos fundos. Isto enchia as suas fotografias de vida e de dinâmica.

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Eu sou um apreciador de contraste. Sou daqueles que, se vir que uma determinada cena não vai resultar como quero por lhe faltar contraste, não a fotografo. Apesar de estar a tentar caminhar nessa direcção, ainda não consigo fazer com que as altas luzes tenham o equilíbrio, a presença e a beleza que vejo em Dave Heath (mas também, devo dizê-lo, em René Burri e Ralph Gibson). Por vezes saem-me demasiado estouradas, outras vezes algo apagadas. Agora que vi as fotografias de Dave Heath, fiquei ainda mais desgostoso por não estar a conseguir descrever as altas luzes como gostaria. Ainda tenho imenso para aprender, mas agora tenho mais uma referência. Não quero imitar nem copiar – mas quero produzir altas luzes como as de Dave Heath! São um hino à beleza do preto e branco da película.

M. V. M.

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