Visita a Fernando Aroso

Os que lêem o meu blogue desde o início – por outras palavras, desde que este ainda se chamava ISO 100 – sabem que nutro uma simpatia muito especial por um fotógrafo profissional, hoje retirado – mas ainda fotografando esporadicamente –, de nome Fernando Aroso. Este homem tem quase noventa e cinco anos de idade e já são notórias algumas debilidades no físico, mas conserva uma lucidez e uma memória invejáveis. Os que se lembram do que escrevi (quem não se lembrar pode sempre usar o motor de busca do blogue) sobre Fernando Aroso leram palavras apologéticas, com um ou outro exagero de permeio, mas sempre sentidas.

Com efeito, Fernando Aroso foi decisivo na minha determinação de me dedicar à fotografia. Conheci-o em 2010, porque a Federação das Colectividades do Distrito do Porto, da qual eu era membro da direcção, me encarregou de elaborar o cartaz para um fórum de teatro amador que essa organização ia promover. A minha primeira maqueta incluía uma fotografia belíssima do actor e encenador António Pedro – em 2010 celebrava-se o seu centenário –, mas Júlio Gago, figura importantíssima do teatro nacional que tenho o privilégio de conhecer, informou-me que essa fotografia era da autoria de Fernando Aroso e que este era particularmente cioso dos seus direitos enquanto autor. Evidentemente, logo providenciei a obter a sua anuência para a utilização da fotografia.

O que eu não esperava era o que se passou a seguir. Apresentei-me, nervoso, no n.º 6 da Rua de Entreparedes numa tarde de segunda feira, com a impressão da maqueta do cartaz. Fernando Aroso, que me acolheu com toda a amabilidade, recusou o consentimento a que eu usasse a fotografia – e teve razão: cometi uma das piores atrocidades que se pode fazer a uma fotografia de autor, que foi colocar texto por cima dela. Em lugar daquela fotografia, Fernando Aroso, que foi o fotógrafo predilecto do Teatro Experimental do Porto entre os anos 50 e 80 do Século passado, propôs que eu usasse um retrato de António Pedro da sua autoria. Além de se dar ao incómodo de caminhar até uma loja na Rua de Santa Catarina para digitalizar o negativo, sentou-se ao meu lado em frente ao monitor do seu computador e, juntos, congeminámos o cartaz. Escusava de dizer que este foi o melhor cartaz que a Federação das Colectividades do Distrito do Porto mostrou para publicitar um dos seus eventos.

Ontem procurei de novo Fernando Aroso para obter o seu consentimento. Também agora para usar uma das suas fotografias num cartaz para um fórum de teatro amador. O facto de eu não ter um smartphone ou um tablet, conjugado com o funcionamento deficiente do computador de Fernando Aroso, levou a que a busca da fotografia em questão fosse particularmente demorada; por muitos momentos senti que estava a abusar da paciência de Aroso, porque este teve de revirar a sua colecção de negativos de fotografias de peças de teatro.

Durante esta procura, dei-me conta do verdadeiro tesouro que aquele homem tem consigo: são centenas de negativos de película 120 – Fernando Aroso informou-me que usou uma Rolleiflex para o grosso das fotografias – de peças do Teatro Universitário do Porto e, sobretudo, do Teatro Experimental do Porto. São centenas de negativos de encenações que vão desde Antígona a O Morgado de Fafe Amoroso, passando por O Tio Vânia ou Hedda Gabler. Naquelas fotografias, todas elas maravilhosamente bem compostas – «ao milímetro», asseverou-me Fernando Aroso, com visível e justo orgulho pelo seu perfeccionismo – estão retratados alguns dos melhores actores portugueses de sempre, como António Pedro, Alina Vaz ou João Guedes.

Aquilo que desfilou diante dos meus olhos atónitos foi o testemunho material de décadas daquele que foi um dos mais importantes movimentos do teatro português de sempre. António Pedro desencadeou uma revolução na estética do teatro em Portugal, e as peças que ele encenou estão excelentemente documentadas pelos negativos de Fernando Aroso. Eu tenho de confessar que não sou muito versado em teatro, pelo que me apoio fortemente nos textos que Júlio Gago vai publicando no seu facebook, mas decerto não me passou despercebida a importância daquele espólio.

Júlio Gago tem dado a conhecer muitas das fotografias de Fernando Aroso, mas a despeito de este esforço ser meritório e sentido, penso que Fernando Aroso merece um reconhecimento muito mais vasto. Ele é um homem humilde que se limitou a fazer discretamente as que são porventura as melhores e mais importantes fotografias de teatro alguma vez feitas em Portugal, sem alarde e sem nunca ter procurado qualquer forma de protagonismo. Poucos conhecem a sua obra, o que é injusto mas faz de mim um privilegiado. Fernando Aroso tem um lugar importantíssimo em mim – é um mentor, um exemplo, uma referência –, mas devia ter um reconhecimento universal, pela importância e qualidade do seu trabalho. Espero que um dia lhe seja feita esta justiça – e que esse dia venha cedo.

M. V. M.

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