Três anos

Foi no dia 12 de Junho de 2013 que comprei a Olympus OM-2n, uma máquina fotográfica que gasta rolos de película. Por esta altura já toda a gente sabe que fotografo praticamente em exclusivo com ela. Já me cansei de escrever aqui sobre isto e, reciprocamente, o leitor já se cansou de lê-lo, mas quando penso nas razões por que uso este meio por muitos considerado anacrónico, por vezes surgem-me perguntas às quais tenho dificuldade em responder.

A fotografia analógica só a espaços pode ser considerada melhor que a digital. Não é tão versátil, é tudo menos prática e alguns equiparam a qualidade que o formato 135 tinha a oferecer, na sua época de ouro, com a que se pode conseguir hoje com um iPhone (o que é discutível, evidentemente, mas não anda assim tão longe da verdade). Neste caso, por que insisto? Afinal de contas, tinha uma câmara digital que, aliada a um programa de edição de imagem quase perfeito, me dava resultados mais que satisfatórios. Por que é esta última que uso apenas de vez em quando, e não a outra? E por que troquei a comodidade de ver os resultados imediatamente por esperas de vários dias?

A resposta concentra-se numa única palavra: prazer. Na verdade, factores como ser obrigado a ser comedido no número de fotografias (e, por esta via, ser mais selectivo), ou ser forçado a dominar a técnica, já não contam; contaram nos primeiros tempos, mas agora o que sobreleva é o prazer de fotografar com a OM-2. Não por ser a OM-2, mas por ser uma máquina fotográfica analógica e uma SLR. Há qualquer coisa de exultante em fotografar com uma máquina como esta: a claridade do visor, a facilidade em focar, a acção mecânica e o som do disparo, com a vibração do obturador e do espelho a darem expressão corpórea ao gesto de fotografar, e o accionamento do avanço do rolo concorrem para que usar a OM-2 seja um prazer. Aliás, já nem concebo fotografar sem usar um visor e sem accionar a alavanca do avanço do rolo. Ambos me parecem essenciais e indissociáveis do acto de fotografar.

Depois há as lentes. Embora não tenham a mesma reputação que as Nikon, Zeiss e Leica, as lentes Zuiko para o sistema OM são maravilhosas. Têm toda a nitidez que se pode esperar de boas lentes, são comedidas nas distorções e aberrações e, acima de tudo, funcionam bem depois de todo este tempo. Sobretudo, constituem um sistema completo que abrange as distâncias focais mais importantes, o que é algo que não tinha com a câmara digital.

Nem sequer posso dizer que fico mal servido em matéria de qualidade de imagem. As fotografias podem ser menores em tamanho, mas não perdem nada em nitidez. Isto é o que facilmente descobre quem usa máquinas analógicas e rolos de qualidade. No meu caso, encontrei uma película que me satisfaz por completo; com ela, as minhas fotografias têm toda a nitidez e contraste que espero delas. E sem ter de recorrer à edição de imagem, a qual uso apenas esparsamente.

Usar película é uma experiência que vivo apenas pela metade. Escapa-me uma parte substancial do processo, que é a revelação. Em lugar de a dominar (o que seria materialmente impossível, por diversas razões), entrego-a a outrem. Tive a sorte de a falta de qualidade dos serviços que experimentei com os meus primeiros rolos me ter empurrado para a Câmaras & Companhia, onde as mãos experientes do Raúl Sá Dantas fazem maravilhas. Estes três anos são também a história de uma aproximação com o Raúl e a Leonor que ultrapassa em muito a mera relação entre cliente e fornecedor. O que aprendi com eles é simplesmente inestimável, mas são também pessoas excelentes que me orgulho de conhecer.

Estes três anos com uma máquina analógica serviram para me ajudar a definir um estilo, mas sobretudo para dar às minhas fotografias um cunho próprio. Agora procuro que as fotografias exprimam as minhas concepções gráficas, em lugar de simplesmente mostrar coisas ou fazer fotografias iguais às de outras pessoas. Procuro, em especial, que as minhas fotografias vivam da luz e da maneira como ela incide sobre os motivos que escolho. É possível que tivesse feito as mesmas escolhas se fotografasse com uma câmara digital, mas os rolos fazem isto melhor. Só há uma câmara digital – a Leica M Monochrom – capaz de reproduzir as altas luzes como o Kodak Tri-X e, sobretudo, os Ilford, mas essa câmara é caríssima.

Não sei quanto tempo isto vai durar. Se for um daqueles ressurgimentos como o do vinil, poderei continuar com esta maluquice de expor rolos por mais uma ou duas décadas. O que é bom.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s