Já chega! (2)

Por Steve McCurry
Por Steve McCurry

Isto que está a acontecer a McCurry é indecoroso. As manipulações que são denunciadas no artigo do petapixel.com que referi ontem nem sequer o são. São aquilo que fazem todas as pessoas que têm a inteligência de compreender que nenhuma fotografia é boa tal como saiu da câmara. Por que havia McCurry de apresentar JPEGs saídos directamente da câmara? Acaso essa seria uma garantia de integridade? É-lhe exigido que seja mais purista que os puristas?

Toda a gente retoca imagens, e isto não veio com a fotografia digital. Ansel Adams criou um sistema de alterar as características da imagem na revelação, W. Eugene Smith tornou-se conhecido pelas suas maratonas no laboratório e os chiaroscuri de Ray K. Metzker são impossíveis de obter com os meros recursos da câmara e uma revelação padronizada. Contudo, ninguém diz que estes homens eram fraudes.

Porquê, então, toda esta sanha contra Steve McCurry, a quem, aparentemente, nem sequer perdoam que converta imagens para preto e branco? Antes de mais, porque toda a gente gosta de ver sangue. Todos nós abrandamos na autoestrada para ver o resultado de um acidente. Há um interesse mórbido nesta devassa de certos aspectos da vida das pessoas, especialmente se estas forem figuras reputadas como McCurry indubitavelmente é. Steve McCurry é, ex æquo com Sebastião Salgado, o mais famoso dos fotógrafos vivos (o que não é a mesma coisa que dizer que é o melhor, notem bem). A curiosidade mórbida e o gosto da sordidez determinam, em grande parte, o interesse à volta deste pseudo-escândalo.

Há outras razões de natureza subjectiva que explicam esta campanha. É um prazer incomensurável, para muitos, destituir alguém da sua grandeza. A tacanhez dessas pessoas não permite que se conceba haver alguém que se eleve acima do seu patamar limitado, pelo que há que trazê-lo para baixo desse limiar de mediocridade. Como? Provando que essa grandeza é falsa ou foi adquirida por meios fraudulentos. Dizer que alguém é um vencedor à custa da batota é recorrente entre as pessoas que comungam esta mentalidade; provar a existência dessa batota torna-se, para elas, uma verdadeira missão. Não me surpreende que seja este o processo mental que determina os que querem prolongar insensatamente esta controvérsia.

Há muito de inveja nisto tudo. Como sabemos, Steve McCurry é um dos fotógrafos mais profusamente imitados. As suas fotografias da Índia são largamente copiadas pelos Joel Santos deste mundo. Para os seus imitadores, não há nada melhor do que poderem dizer que o imitado é, afinal, um fotógrafo de nível comparável ao deles – ou, inversamente, que são tão bons como ele, com a diferença de ele recorrer à fraude e os imitadores não. É a alegoria do ídolo com pés de barro aplicada às fotografias de indianos barbudos com turbantes. O que estes imitadores nunca poderão compreender é que, a despeito de se comprazerem com a descoberta de que McCurry usa meios que muitos consideram ilegítimos, ele chegou primeiro. Ele começou a fazer essas fotografias quando muitos dos seus imitadores ainda andavam de cueiros. Este mero facto é suficiente para que os imitadores nunca consigam mais do que expor-se ao ridículo quando denunciam McCurry.

E há quem pense que pode beneficiar com a denúncia de pseudo-escândalos como este. Não sei se os leitores se lembram, por exemplo, da polémica levantada por um tal Neal Krawetz acerca da fotografia de Paul Hansen que venceu o prémio da World Press Photo em 2013. Este insecto viu a sua reputação acrescida com essa denúncia; o facto de, como se provou, não ter havido fraude nenhuma, foi irrelevante: todos sabemos que a denúncia de um escândalo, tal como é apresentada pelos meios de informação, tem um impacto infinitamente maior que o seu desmentido. Pelo meio há reputações que ficam manchadas, mas que importa? O verme conseguiu engrandecer-se à custa da suspeita lançada sobre quem é infinitamente superior a ele. Tal como este Neal Krawetz não teve problemas em alcandorar-se denegrindo Paul Hansen, também haverá alguém que virá colher os frutos de ter submetido Steve McCurry ao vexame público.

De mim não lerão mais críticas a McCurry. Tornou-se claro que quem ainda a faz nutre sentimentos baixos, sendo motivado pela inveja e pela tacanhez. Já chega!

M. V. M.

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