Já chega! (1)

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Uma coisa é criticar; outra, muito diferente, é tentar espezinhar e humilhar. Há quem faça a primeira e depois, não contente – ou melhor: contente com a atenção que atraiu com as críticas e querendo mais protagonismo – prossiga para a humilhação e o aviltamento. Por vezes, quem faz isto não tem a noção de que está a ultrapassar a fronteira do razoável e a deixar que sentimentos baixos como o despeito e a inveja os dominem.

É o que está a acontecer com a polémica à volta de descoberta que Steve McCurry manipulava fortemente as suas imagens. Neste caso, as críticas estão a ultrapassar manifestamente os limites. Procura-se fazer com que o homem seja exposto como uma fraude, um mentiroso e um vigarista.

Eu juntei a minha ínfima voz às críticas quando foi descoberto que Steve McCurry – ou, o que é pior, alguém a mando dele – manipulava as fotografias que apresentava como suas, mas, abstendo-me de transpor as fronteiras do bom senso, nunca fiz questão de rebaixá-lo (nem de resto teria poder ou influência para tanto). Pelo contrário, procurei sempre ressalvar que Steve McCurry é – foi – um fotógrafo de excepção, mesmo se o estilo que ele emprega na grande maioria das suas fotografias está longe de me agradar.

A minha opinião sobre esta vexata quæstio é razoavelmente coerente: hoje em dia Steve McCurry é um empresário que ganha fortunas fazendo fotografias que satisfazem gostos banais, apoiando-se na reputação que adquiriu enquanto fotojornalista. Não tenho de atacá-lo por causa disto: só compra fotografias de Steve McCurry quem quer. Ninguém é obrigado a fazê-lo. É uma questão de gosto e gostos, como se diz, não se discutem. (Mas não foi Nietzsche que disse que as guerras não eram mais que discussões sobre gostos?) O que me aborrece, nisto que se veio a saber sobre a manipulação das fotografias de McCurry, é o facto de ele ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, que apresenta como seu – porque a edição de imagem é parte do processo fotográfico –, e culpar quem trabalha para ele quando se descobrem as falhas. É esta forma de sobranceria que me parece pouco ética.

Nada disto significa, porém, que Steve McCurry tenha deixado de ser um excelente fotógrafo. Diferente seria se se tivesse descoberto que as fotografias não eram feitas por ele, i. e. que não era ele quem segurava a câmara e carregou no botão do obturador quando foram capturadas, mas não foi isto que aconteceu. A manipulação refere-se a uma fase do iter fotográfico que apenas deve lidar com a estética da imagem: é lá que se melhora a exposição, o contraste e a apresentação das cores. Retirar um determinado objecto não traz problemas éticos de monta, excepto se a imagem for apresentada como sendo uma representação da realidade e essa subtracção mente descaradamente sobre a cena que a câmara presenciou. Uma coisa é retirar uma embalagem de plástico que estava a sujar o chão de um determinado local, outra é eliminar várias pessoas que figuravam no enquadramento, como McCurry fez (ou mandou fazer).

Penso que esta é uma abordagem razoável e sensata das questões relativas à edição de imagem, autorizando-me porventura a criticar um fotógrafo que excede esses limites. Ao fazê-lo, este último estará, na hipótese mais benevolente, a embelezar e romancear a realidade. Na pior, estará a mentir descaradamente. Numa hipótese intermédia, estará a expor-se ao ridículo. Compete ao leitor decidir, de acordo com as suas próprias concepções, em qual destas possibilidades o comportamento de Steve McCurry se insere.

O que não pode ser feito, de maneira nenhuma, é tentar explorar a descoberta destas manipulações e insistir nela com o fito de enxovalhar e destruir a reputação de Steve McCurry. Esta é a fronteira a que me referi anteriormente. Contudo, há quem o esteja a fazer. Há quem pense que descobriu um filão e use todos os argumentos possíveis para enlamear Steve McCurry.

Foi o que descobri ao ler este artigo no petapixel.com. Se repararem bem, as «manipulações» que são aqui apresentadas de maneira bombástica e escandalosa não são mais que retoques. Muitas delas não fazem mais que melhorar a curva de tons, a gama dinâmica, o contraste e a saturação. Contudo, uma vez que este artigo se insere numa série de críticas – algumas das quais merecidas, é justo dizê-lo – às manipulações grotescas que foram inicialmente descobertas, passa por ser mais uma prova de que Steve McCurry é profundamente desonesto. (Continua)

M. V. M.

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