Mais sobre a guerra entre o analógico e o digital

Eu ainda não me decidi completamente acerca da luta entre os domínios analógico e digital. Embora tenha aderido quase incondicionalmente ao primeiro, não consigo dizer que o outro é destituído de mérito.

Há um aspecto em que, na minha modesta opinião, a fotografia analógica continua a ser a melhor: é mais autêntica. E fotografar com película confere a quem o faz uma impressão de dificuldade e valor que leva a ponderar melhor o interesse de cada fotografia, mas quando o tema é a qualidade de imagem de cada um dos domínios, a resposta é mais difícil.

Para dizer a verdade, a fotografia digital já ultrapassou a grande limitação que o formato 135 tem: o tamanho das imagens. Ver um negativo digitalizado em tamanhos superiores a 1500x1000px já mostra alguns limites, e as ampliações perdem nitidez em tamanhos maiores que 20×16 cm. Com os formatos médio e grande a história é outra, evidentemente, mas mesmo aqui o digital está a ganhar terreno.

Hoje recebi duas opiniões contraditórias que não me ajudaram em nada nas minhas decisões. Um fotógrafo profissional reformado assegurou-me que é uma asneira fotografar com película colorida. Esta opinião condiz com o que eu penso, mas apenas pelo facto de as películas a cores serem equilibradas para um único tipo de condições de luz: um rolo equilibrado para as sombras dá cores berrantes debaixo de luz solar e, inversamente, um outro equilibrado para luz solar dá péssimos resultados na fotografia nocturna. Mas, no mesmo dia, dizem-me outra coisa que também confirmei ser verdade: a película 135 tem uma gama dinâmica com a qual nem o melhor sensor do mundo pode sequer sonhar. É muito simples: com película 135, as altas luzes nunca estouram e as sombras nunca ficam enegrecidas. Com película 135 a cores pode abusar-se da exposição em 4 EV’s, ao passo que, na fotografia digital, mesmo com a exposição correcta as altas luzes podem estourar.

Contudo, continua a ser verdade que o equilíbrio das cores é uma vantagem da fotografia digital que faz a balança pender para esse lado. Quer isto dizer que o digital já ganhou a guerra? Há um último reduto, que é a fotografia a preto e branco. Não há nenhum programa de edição de imagem e nenhuma app que consiga o aspecto de uma fotografia feita com Kodak Tri-X, ou com Ilford FP4 e HP5. É impossível converter um ficheiro Raw de tal maneira que a imagem se assemelhe às fotografias feitas com essas películas. As altas luzes, em particular, são impossíveis de imitar por meios digitais. Não há nenhuma conversão que consiga reproduzir a beleza das altas luzes de um Ilford FP4.

Hoje mesmo, porém, tive oportunidade de confirmar aquilo que, pelo que tinha visto anteriormente, já suspeitava. Há uma câmara digital capaz de fotografias que têm o look das melhores películas, mesmo na descrição das altas luzes. Como foi isto possível? Repararam que, quando aludi à impossibilidade de reproduzir o aspecto tonal da película por meios digitais, me referi às conversões. Os ficheiros Raw ou DNG produzidos pelos sensores normais são a cores. As fotografias a preto e branco são obtidas convertendo os ficheiros em escalas de cinzentos ou retirando a saturação das cores (o que não dá bons resultados e, de resto, faz com que a imagem seja sempre RGB e não um preto e branco puro). Contudo, o que vi hoje foi o output de um sensor monocromático: um sensor ao qual foram retiradas as camadas RGB, produzindo imagens que são preto e branco puro. As imagens que vi hoje num monitor de altíssima qualidade são impossíveis de distinguir de digitalizações de negativos de médio formato.

A câmara que tem este sensor nas entranhas é a única que me levaria a voltar ao domínio digital. Infelizmente, é demasiado cara para as minhas posses. Creio que, se usar rolos até ao último dos meus dias, não gastarei tanto quanto essa câmara custa – até porque esta última precisa de lentes que custam quase tanto como o corpo.

Imagem: Wikipedia Commons

Essa câmara é a Leica M Monochrom. Representa o melhor dos dois mundos. Só não escrevo aqui que é a maior ameaça à fotografia analógica porque o seu preço torna-a proibitiva para o comum mortal. O que posso escrever é que esta é a única câmara digital capaz de produzir imagens tão boas como as que é possível obter com as melhores películas. E isto, meus amigos, é um feito memorável.

M. V. M.

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1 thought on “Mais sobre a guerra entre o analógico e o digital”

  1. Para mim, só existe “guerra” na cabeça das pessoas. O analógico e o digital são duas faces da mesma moeda, cada uma com as suas vantagens e as suas desvantagens. Nunca deixei nem deixarei de empregar estes recursos, embora admita que, no que toca ao prazer, o filme me dá um pouco mais de gozo pelas sensações do tacto que transmite.É um pouco como a discussão entre quem apresenta o melhor formato sonoro, se o vinil, se os formatos FLAC ou lossless de outro tipo digitais. A beleza está nos olhos de quem a vê.

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