Enquadramento e composição

Paul_Strand,_Wall_Street,_New_York_City,_1915
Fotografia por Paul Strand

Eu não sou um escolástico, mas gosto de rigor. Não sou dado a classificações exaustivas, mas gosto de ser sistemático. Acima de tudo, ser rigoroso e sistemático é um meio de cumprir o objectivo, que está sempre presente em mim, de usar as palavras com o fim para que elas foram criadas. Os adjectivos servem para caracterizar, os nomes e substantivos servem para designar. Deste modo, acredito que uma coisa pode ser definida por uma palavra, e, exceptuado o caso das palavras multívocas, uma palavra que define uma coisa não pode servir para definir outra, sob pena de se incorrer em imprecisões e equívocos que podem falsear o raciocínio.

Ora, na fotografia existe alguma confusão entre dois conceitos que, embora façam parte do mesmo processo, se referem a momentos e acções diferentes. São os de enquadramento e composição. Estes conceitos não são sinónimos, porque designam dois actos que, pertencendo embora ao mesmo contexto, são distintos.

O enquadramento é o que surge cronologicamente em primeiro no acto de fotografar. Como a sua própria etimologia indica – vem de enquadrar, inserir num quadro –, é o momento em que se olha uma determinada cena e selecciona quais os objectos (pessoas ou coisas) que vão figurar na fotografia. O espaço onde a fotografia existe é delimitado pelos lados do visor e condicionado pela relação de aspecto; enquadrar é, deste modo, seleccionar o que se quer que vá figurar dentro de um espaço que tem uma forma pré-definida.

O enquadramento implica, deste modo, fazer escolhas. Sendo o espaço do visor finito em relação ao que vemos, nem todos os objectos que vemos com os nossos olhos poderão figurar na fotografia. Esta escolha compreende a da distância focal, conforme se queira incluir mais ou menos objectos no espaço limitado da fotografia.

A composição é diferente: consiste na organização dos objectos dentro do enquadramento, de tal forma que aqueles vão formar o grafismo da fotografia. Uma vez seleccionados os objectos que queremos incluir nesse quadro que é a fotografia, há que dispô-los dentro do espaço que o visor delimita de maneira a formar uma imagem cuja estética corresponda à intenção do fotógrafo. A escolha dos objectos que vão figurar no enquadramento é o resultado de uma valoração do significado que lhes atribuímos e da da importância que eles têm na imagem fotográfica que concebemos ao ver uma cena com os nossos olhos; a organização da imagem a que chamamos composição, por seu turno, resulta de considerações essencialmente estéticas.

Na composição, as considerações a tomar são enformadas pela linguagem visual que nos é inata ou adquirimos. A composição será tanto ou tão pouco conseguida conforme a educação estética do fotógrafo. Aqui intervêm considerações como a dinâmica da imagem, o equilíbrio, a harmonia. No enquadramento joga-se com juízos de valor para determinar o que vai ou não figurar na fotografia; na composição dispõem-se formas, linhas e volumes de maneira a que a fotografia resulte num todo coerente.

Evidentemente, composição e enquadramento não são noções antagónicas. Ambas se conjugam para formar a imagem e nem sequer é possível estabelecer uma hierarquia ou uma ordem de precedência: por vezes a cena surge diante dos nossos olhos já composta, sendo a tarefa do fotógrafo a de excluir os elementos que o espaço finito do visor torna supérfluos; outras vezes a cena depende da intervenção do fotógrafo para se tornar numa composição, como acontece com as naturezas-mortas; outras vezes ainda torna-se necessário esperar que os objectos se movam dentro do enquadramento para formar uma composição correspondente à imagem que o fotógrafo havia imaginado. A escolha da perspectiva, por exemplo, pode ser uma questão de enquadramento, mas também pode ser determinante na composição – o mesmo se podendo dizer das escolhas que se fazem em função da relação de aspecto: quando esta é quadrada, ou de outra forma pouco convencional, o enquadramento tem de ter em conta o que vai ou não funcionar na composição.

Seja como for, composição e enquadramento não são a mesma coisa. Neste último escolhe-se o que vai ficar dentro do espaço cénico que é delimitado pelas linhas do visor, na composição organizam-se os elementos que já estão enquadrados.

M. V. M.

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