AI

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Erich Heil

Não, este título não é uma interjeição de dor. «AI» são as iniciais de Artificial Intelligence, que está a querer intrometer-se na fotografia como Hal na vida dos cosmonautas de 2001, mas de uma maneira ainda mais perversa.

Tenho para mim que deixar que o computador tome decisões em domínios subjectivos é uma parvoíce. A inteligência artificial é útil em muitos domínios, mas a verdade é que não há nada mais estúpido que um computador. Este só faz aquilo que é programado para fazer, e mesmo assim fá-lo frequentemente mal: quando quero escrever UE, iniciais de União Europeia, o Microsoft Word corrige o texto para EU; no ano passado fotografei um carrinho de choque estacionado na respectiva pista e o Flickr, depois de analisar a sua forma, concluiu que era um sapato. Se isto é inteligência, mesmo que adjectivada de artificial, vou ali e já venho.

Agora tomei notícia do lançamento de uma aplicação informática chamada Picturesqe, a qual analisa as fotografias que estão armazenadas num cartão de memória e, no intuito de facilitar o workflow (nós, os analoguistas, estamos constantemente a esquecer que há quem faça milhares de fotografias numa só sessão), ordena e distingue as fotografias boas e más e rejeita estas últimas, recomendando que sejam apagadas.

Esta forma de eugenia fotográfica é simplesmente grotesca. Antes de mais, as pessoas que programaram o algoritmo que selecciona as imagens são idiotas ou pretensiosas (ou ambas). A selecção que a aplicação faz implica o uso de algo que nunca poderá ser medido por padrões objectivos: o gosto. Além disto, incorre no vício de tentar reduzir tudo a padrões. Com efeito, esta aplicação baseia-se em juízos do que é correcto ou incorrecto tão básicos como a iluminação ou a presença do objecto no centro ou num dos pontos de intersecção da grelha da regra dos terços. Não há lugar para a criação de imagens que escapem ao pensamento convencional, o que só mostra, a meu ver, que não há nada pior do que gente burra a tentar ser inteligente – mesmo que a inteligência seja do tipo artificial.

Com efeito, «inteligência artificial» é uma contradição nos termos. Toda a inteligência que existe na AI tem origem humana. O computador não é inteligente: não desenvolve raciocínios, não tem vontade própria nem é capaz de emoções ou sensações. O que ele faz é aplicar algoritmos que foram programados por humanos, e este é o grande problema da inteligência artificial: além de os programas serem imperfeitos (porque quem os concebe é naturalmente imperfeito e por esse facto não pode alcançar a perfeição), o computador não pode, por mais completo e exaustivamente pensados que sejam os programas e aplicações, substituir-se aos seres humanos em julgamentos que são do domínio da subjectividade, comandados por emoções que não podem ser exprimidas em linguagem binária (por melhor e mais rápido que seja o processamento de todos aqueles zeros e uns).

Os programadores, aparentemente, são incapazes de compreender isto e muitos deles parecem insistir que são capazes de fazer com que o computador se substitua aos gostos pessoais. No caso do Picturesqe, sou capaz de conceder que quem o concebeu é honesto quando afirma não pretender que a aplicação formula um juízo de valor, mas é exactamente isso que ela faz: impõe – ou tenta impor – o gosto dos seus programadores. A iluminação, a posição do motivo no enquadramento e a exposição são – ou podem ser – manifestações da intenção criativa do fotógrafo, logo de preferências e gostos intrinsecamente pessoais. O computador não tem o direito de decidir que uma determinada imagem deve ser apagada porque não está bem exposta, ou que uma imagem é melhor que outra por numa o motivo figurar no centro do enquadramento e noutra aquele aparecer num canto da imagem. (No meu caso, duvido que avaliasse uma única das minhas imagens como «boa».)

No fundo, isto é o resultado da inesgotável pretensão do homem – neste caso, imaginando que pode reproduzir a inteligência humana num computador. Estas pessoas deviam perceber que o que nos torna bonitos é as nossas imperfeições e que viver num mundo padronizado e normalizado seria um tédio. Já nem lhes peço que raciocinem um pouco sobre os perigos de viver num mundo onde tudo pode ser reduzido a algoritmos.

Quanto aos fotógrafos que se poderiam deixar tentar por esta aplicação, penso que podem encurtar substancialmente o workflow se forem mais selectivos e tiverem mais cuidado quando fotografam. Fazer cem exposições do mesmo motivo para no fim apenas se utilizar uma não é um benefício: é ineficiência. De resto, quem é suficientemente tolo para permitir que um programa se substitua a ele no juízo de valor sobre a qualidade de uma fotografia?

M. V. M.

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