VR, parte 2

Nada do que ficou escrito no texto anterior esclareceu o leitor quanto à relação entre fotografia e VR. Contudo, esta existe, embora não seja nada de tremendamente entusiasmante. Há dois níveis em que a fotografia se relaciona com a VR. Um é a construção dos cenários virtuais; outro é a visualização das fotografias – não apenas em 3D, mas como se estivéssemos numa galeria virtual.

Para fazer os cenários virtuais é necessário recorrer à fotografia e esta tem as suas exigências técnicas: são fotografadas num ângulo de 360º e, para que a ilusão resulte, as imagens têm de ser unidas sem transições. A maior parte das câmaras capazes de fotografar em 360º tem sensores de compactas, pelo que, dado o actual estado da tecnologia, não se pode esperar uma grande verosimilhança com a realidade, a menos que estejamos habituados a viver numa dimensão em que as altas luzes estouram e vemos ruído digital em toda a parte. (O que, como a VR vai ser vista sobretudo através de smartphones, até faz algum sentido-) Mais ainda, estas câmaras devem fotografar em 3D, o que implica recorrer a uma das anedotas mais requentadas da indústria fotográfica: as lentes estéreo.

Mas não deve ser bem isto que interessa aos leitores, a menos que estes trabalhem em empresas de informática que se dediquem à construção de cenários virtuais. Fotografar assim é, provavelmente, uma tarefa monótona e desinteressante. Convenhamos que, se derem a um fotógrafo a opção entre fazer uma reportagem num campo de refugiados na ilha de Lesbos ou fotografar cenários para VR, ele tenderá a escolher a primeira opção – o que é desculpável. O verdadeiro interesse da VR estará, provavelmente, em ver fotografias em galerias virtuais, o que deve ser como ir a uma exposição sem sair de casa – mas com um capacete absurdo na cabeça. (Faltará saber se essas fotografias vistas em exposições virtuais são também elas em 3D.)

Se o leitor depreendeu, do tom absolutamente blasé com que escrevi estas linhas, que a VR não me aquece nem me arrefece, acertou em cheio. De que serve a realidade virtual para a fotografia? Para nada. Não é por as vermos em 3D que as fotografias de m**** que vemos no facebook se vão tornar mais interessantes. Lembram-se de, no texto anterior, ter afirmado que a projecção tridimensional não teve adesão anteriormente por não ter qualquer tipo de utilidade para a vida das pessoas? Pois bem: ver fotografias em 3D numa galeria virtual nunca poderá substituir vê-las numa exposição ou num álbum antigo. Muitos poderão sentir curiosidade e, eventualmente, adquirir os aparelhos necessários para ver em 3D (ou em VR, se preferirem), mas, tal como aconteceu com a coqueluche do cinema em 3D de há trinta e tal anos, cedo o interesse esmorecerá e os capacetes VR terão o mesmo destino dos óculos de cartão e película celofane azul e vermelha. Com a diferença de que terão pago muito mais pelo capacete do que pelos óculos, os quais muitas vezes eram dados aos espectadores nos cinemas que estreavam filmes em 3D.

Esta reinvenção da realidade virtual não é mais do que a tentativa dos gigantes da electrónica e da informática de criar um novo mercado. Será decerto fantástico para a Google criar programas de VR, assim atraindo (ainda) mais gente, tal como a Samsung não renegará certamente os proveitos que realizar com a venda de aparelhos para imergir na realidade virtual. Simplesmente, a adesão que a VR vier a obter – acreditem em mim se eu disser que há uma multidão de nerds a salivar por este regresso da realidade virtual – será sempre confinada a um núcleo muito restrito de entusiastas. Nunca será um fenómeno de massas, mesmo que os aparelhos para ver a VR sejam simples cartões que podem ser obtidos por pouco dinheiro, como o Google Cardboard. É algo que não faz parte das necessidades das pessoas.

Fotografar e ver fotografias pode ser uma necessidade – o que é discutível –, mas vê-las em ambiente de realidade virtual é simplesmente supérfluo. E, nos tempos que correm, «supérfluo» tem o significado que sempre devia ter tido: é sinónimo de inútil e de dispensável e desnecessário. A vida está demasiado cara para adereços caros que vão ter a mesma utilidade e duração que um brinquedo fatela de plástico comprado na loja do chinês.

M. V. M.

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