Redefinindo definições

Quase todos nós nos habituámos às classificações comuns das lentes – ou, mais correctamente, das distâncias focais, rectificação necessária nesta era em que há quem não conceba a existência de lentes que não são zooms. Já temos a nossa mente pré-formatada para aceitar que uma lente de 28mm é uma grande-angular, que 50mm é a distância focal standard, ou normal (eu gostava de poder assassinar a criatura que inventou a expressão nifty fifty para as lentes normais) e que, acima destas últimas, é tudo teleobjectivas.

Estas noções estão erradas. Não vou decerto ser eu o pioneiro que vai inventar uma classificação nova, mas esta forma clássica de compartimentar as distâncias focais não é a mais correcta: quanto às grande-angulares, não me suscita críticas, mas esta classificação falha quanto às distâncias focais normais e de teleobjectiva.

As distâncias focais são, como sabemos, determinadas pelo espaço que a luz percorre entre o ponto de convergência dos raios colimados e o plano focal. Quanto menor for esta distância, maior será o ângulo da imagem projectada sobre a superfície sensível à luz. Sendo assim, a distância focal determina o ângulo de visão da lente.

Simplesmente, isto não nos diz nada sobre o motivo pelo qual a classificação mais comum foi estabelecida, porque esta se baseia quase exclusivamente da distância focal em si e não nas propriedades ópticas. E foi mal estabelecida quanto às distâncias focais normais, porque estas, em termos ópticos, são determinadas de acordo com a diagonal do plano focal, que, no caso da película 135 ou do sensor full frame de 36×24 mm, é 43,26 mm (este número calcula-se somando o quadrado dos catetos e achando a raiz quadrada do produto). Deste modo, a distância focal normal não é a das nifty fifty, mas a da lente das Rolleiflex, cuja distância focal, uma vez convertida para o formato 135, é de 43 mm.

Outro erro desta classificação a que tenho vindo a aludir é quanto às teleobjectivas. Aqui estabelece-se o princípio segundo o qual é teleobjectiva toda a lente com uma distância focal superior a 55 mm (que é considerada a maior do intervalo em que se situam as distâncias focais ditas normais). Uma vez que existe um fosso entre os 55 mm e os 85 mm das teleobjectivas mais curtas – embora os zooms possibilitem fotografar nas distâncias intermédias, evidentemente –, esta classificação pode ter a sua utilidade, mas a definição de teleobjectiva é muito diferente da que se extrai de simples números: com efeito, considera-se teleobjectiva a lente cuja distância focal é mais longa que o seu próprio comprimento físico.

Assim, por exemplo, a minha OM 135mm-f/2.8 é uma teleobjectiva, porquanto o seu comprimento de 90 mm é inferior à sua distância focal. Mas que dizer de algumas lentes que, sendo da mesma distância focal, são fisicamente mais compridas do que a sua distância focal – que, noutras lentes, é tida como de teleobjectiva? A Canon 100mm-f/2.8, que mede 109 mm, não é uma teleobjectiva, mas a lente 100mm-f/2 é, porque mede 73 mm.

Este exemplo das Canon só parece grotesco se não nos conseguirmos libertar da classificação tradicional, que se baseia apenas no comprimento da distância focal. O critério do comprimento físico da lente faz todo o sentido, uma vez que, se não fosse assim, uma lente de 500 mm de distância focal mediria mais de meio metro. O que, convenhamos, não seria nada prático.

A classificação tradicional tem muito de empirismo e é prática, mas presta-se a equívocos por ter pouco que ver com a realidade que os ópticos tusam como base de trabalho. Especialmente quanto às distâncias focais ditas normais. De resto, é demasiado rígida: por exemplo, uma lente como a Panasonic 20mm-f/1.7 (que tem um ângulo equivalente a uma lente de 40 mm) é uma grande-angular ou uma lente normal? O seu ângulo é demasiado estreito para grande-angular e o comprimento da distância focal exclui-a das lentes normais.

Este é um daqueles casos em que se impõe o surgimento de uma nova terminologia que supere as convenções. (Há uma terminologia alternativa, que é a de classificar as lentes como de paisagem, normais e de retrato, mas é ainda mais limitativa e empírica.) Até lá, o melhor é esquecer as classificações e fotografar com a lente que melhor serve cada fotografia que façamos.

M. V. M.

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