Steve McCurry, Inc.

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O texto de ontem, sobre fazer bem à primeira, foi a consequência de um debate generalizado sobre manipulação de fotografias que tenho acompanhado com a atenção possível. Este debate, que só tem a dimensão que assumiu por ter lugar na internet – o que não lhe retira qualquer pertinência, diga-se –, foi originado pela descoberta confrangedora de que um fotógrafo eminente manipula intensivamente as suas fotografias. Esse fotógrafo é Steve McCurry.

Não é exactamente o facto de Steve McCurry manipular as imagens que me causa transtorno. O que me entristece é ele ter ocultado que essa manipulação existe, mas é também a extensão com que as imagens são alteradas e, sobretudo, o facto perturbador que veio a ser conhecido quando a polémica rebentou, graças a um «esclarecimento público» em que McCurry informa que uma das anomalias causadas numa fotografia por uma manipulação demasiado evidente se deveu à falta de perícia de um dos seus «assistentes».

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Isto quer dizer que Steve McCurry nem sequer faz ele mesmo o trabalho de edição de imagem: manda outros fazer por ele. O que, note-se bem, não é a mesma coisa que alguém que fotografe com película mandar revelar os seus negativos: é bem pior. É deixar o processo criativo nas mãos de um subordinado, o qual, além de não recolher qualquer crédito pelo seu trabalho quando este é bem feito, ainda carrega sobre os ombros o demérito do fracasso, mesmo se este ostenta a assinatura de McCurry. Isto é de uma falta de integridade absolutamente imperdoável.

Com a importância que a edição tem na fotografia digital – tenho repetido que considero o trabalho de edição de imagem uma parte do processo fotográfico –, podemos legitimamente perguntar se Steve McCurry ainda pode ser reputado como o autor das imagens que manda editar. Como, aparentemente, o homem se transformou numa indústria (talvez possamos apodá-la «Steve McCurry, Inc.»), até nos é permitido duvidar se é o próprio McCurry quem usa a câmara para colher os ficheiros que servem de base ao produto final. Espero que tenham reparado na linguagem tecnocrática, porque foi a isto mesmo que McCurry reduziu as suas imagens (que já não podem, em rigor, ser chamadas fotografias).

As imagens de McCurry mentem. Elas não descrevem uma realidade, o que não seria grave se não fossem apresentadas como se o fizessem; o que os «assistentes» de McCurry fazem, sob as ordens dele, é falsear a realidade. O que, de novo, não seria grave se McCurry tivesse a honestidade de assumi-lo. A verdade é que as imagens de McCurry estão de tal maneira distantes do que a câmara captou que já não se lhes pode chamar fotografias: são trabalhos gráficos. E trabalhos gráficos feitos por outrem a mando de quem se arroga a qualidade de autor. São artefactos fabricados pela empresa Steve McCurry, Inc. São imagens comerciais, feitas para vender.

Claro que, sendo Steve McCurry o que é, as suas imagens têm de ir ao encontro de um público amplo, mas de gostos discutíveis. Um público amante de clichés que se satisfaz com uma apreciação superficial da estética da imagem e, na sua frívola ignorância, aprecia motivos que imagina serem exóticos (não há maneira de os fazer compreender que um indiano de Nova Deli não encontra nenhum exotismo em viver nas ruas populosas da sua cidade). São imagens despidas de originalidade: é Steve McCurry, Inc. imitando o que Steve McCurry tem vindo a fazer ao longo dos últimos quarenta anos.

E agora descobriu-se, como uma rajada de vento levantando o postiço de um calvo, que aquilo que Steve McCurry, Inc. vende são imagens distorcidas cuja realidade é deliberadamente manipulada para favorecer a mera estética (que, repito, é de gosto questionável). São, portanto, mentiras. Nós sabemos que as pessoas, no geral, preferem mentiras adocicadas a verdades amargas; sabemos também, tal como Roland Barthes o plasmou brilhantemente, que estamos a trocar a realidade por imagens. Não surpreende, deste modo, que, a despeito de ser um falsário de si mesmo, Steve McCurry seja, possivelmente, o fotógrafo mais imitado por amadores – e não só, como se vê pelo «nosso» Joel Santos – ávidos de reconhecimento fácil.

Deste modo, o que Steve McCurry faz – ou manda fazer – são clichés de gosto duvidoso e destituídos de veracidade. Outrora famoso e reverenciado, Steve McCurry é hoje vaiado e vilipendiado – e com razão. Esteticamente, as suas imagens têm rigorosamente o mesmo valor que as pinturas vendidas pelos artistas de pechisbeque na Rua de Santa Catarina – mas estes últimos, ao menos, não mandam ninguém pintar por eles.

M. V. M.

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