Fazer bem à primeira

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Penso que já escrevi aqui que, quando fotografo com película – o que agora se aplica a noventa e nove vírgula oito das minhas fotografias –, gosto que as coisas me saiam bem à primeira.

O que é, ao certo, «fazer bem à primeira» em fotografia? Esta é uma ideia que não tem muito cabimento quando se fotografa com uma câmara digital. Nestas circunstâncias, não é possível esperar que as fotografias correspondam exactamente à imagem que esperávamos reproduzir. É certo que há alguns que advogam fotografar em JPEG porque esta é a forma mais pura e fiel de fotografar – o que se tem é o que a câmara viu –, mas pensar assim é um equívoco. Por regra, as imagens apresentadas tal como a câmara as captou têm deficiências de cor e de contraste, sendo francamente desagradáveis. Isto é algo que o novato aprende ao fim de poucos dias, quando compara as suas fotografias com outras semelhantes que vê na internet. Além disto, estamos a deixar que o processador se nos substitua nas escolhas a fazer quanto à estética da imagem.

Na verdade, o processo fotográfico digital é incompleto se terminar na apresentação da fotografia tal como ela é captada. O processamento da imagem é essencial para que a imagem corresponda ao que o fotógrafo pretendia: é sempre necessário retocar as cores e o contraste, e mesmo a nitidez pode precisar de ser melhorada. Isto tanto é válido para uma fotografia feita com um telemóvel como para outra feita com uma Nikon D5. Salvo poucas excepções, as imagens digitais precisam sempre de algum trabalho de edição.

Deste modo, o «fazer bem à primeira» parece afastado do domínio digital. Claro que fotografar com uma câmara digital não desobriga de conhecer as noções elementares de fotografia, nem os recursos quase ilimitados que a edição de imagem possibilita justificam que se tirem fotografias de qualquer maneira para depois resolver os problemas no computador. A regra é que, quanto mais savoir faire se incorporar numa imagem, menor será o trabalho de edição – por vezes corrigir uma imagem pode redundar numa acumulação de erros, como sabe quem utiliza a redução do ruído no Lightroom – e mais rapidamente se aprenderá a controlar uma câmara. Se fazer bem à primeira é praticamente impossível no domínio digital, deve sempre haver um esforço para que o trabalho de realizar uma imagem fotográfica não seja totalmente transferido para a edição de imagem – caso contrário estaremos a transpor a fronteira que separa a fotografia das artes gráficas.

E na fotografia analógica? Neste domínio, o «fazer bem à primeira» é um verdadeiro imperativo. Com uma câmara digital, o fotógrafo pode dar-se ao luxo de fazer dezenas de exposições do mesmo motivo, esperando que uma delas saia bem e transferindo a resolução de eventuais problemas para a edição de imagem. Com a película essa possibilidade está excluída – ou pelo menos muito limitada. Antes de mais, porque o número de exposições é finito, pelo que é importante não se desperdiçar, mas também porque, mesmo que se recorra à digitalização dos negativos, os recursos de edição de imagem são mais limitados – os programas de edição existentes só atingem a melhor qualidade se se trabalhar com ficheiros Raw ou DNG – e, finalmente, porque a fotografia analógica, ao contrário da digital, não oferece a possibilidade de visualizar  a imagem e fazer outra imediatamente no caso de a primeira não ter corrido bem. (Aliás, nem sequer há a possibilidade de saber se a primeira correu bem antes da revelação!) É certo que há muitas correcções que podem ser feitas na revelação, na digitalização ou na ampliação, mas uma fotografia falhada dificilmente é recuperável, pelo que mais vale tomar precauções e assegurarmo-nos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para evitar erros antes de premir o botão do obturador.

Note-se que, com isto, não estou a militar ao lado dos que consideram que qualquer retoque numa fotografia, por mínimo que seja, é um sacrilégio. Já não o era quando a película era prevalente, como Ansel Adams e W. Eugene Smith demonstraram com o seu trabalho intensivo no laboratório, e muito menos o é no digital, porque a edição de imagem faz parte do processo fotográfico. Mas saber com algum grau de certeza o que estamos a fazer quando usamos uma câmara ajuda a conseguir fotografias melhores. E isto aplica-se a ambos os domínios, posto que com muito maior premência na fotografia analógica.

M. V. M.

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