D. Sebastião, as selfies e os perigos do narcisismo

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Antes…

Os meus leitores poderão pensar que, quando decido perder o meu tempo a escrever sarcasmos sobre a anomalia psíquica colectiva que são as selfies, sou demasiado severo, porventura manifestando vistas curtas e amargura e levando demasiado a sério o que não é senão uma forma de as pessoas se divertirem. As selfies, afinal de contas, são inofensivas e o pior que podem fazer é exacerbar certos traços da personalidade narcísica.

Não. Não é nada disso. Ou melhor, os perigos das selfies não estão apenas no narcisismo. As selfies levam as pessoas a fazer coisas estúpidas. Não sei porquê, mas hoje em dia as pessoas insistem em mostrar coisas nas redes sociais com elas mesmas incluídas no enquadramento. É como se os outros pudessem não acreditar que alguém esteve na praia se só vissem uma imagem da praia, e não a ele na praia.

Claro que, quem diz uma praia, diz uma estação dos caminhos de ferro. De preferência uma que seja património mundial. E, se tiver uma estátua de um rei, esculpida há cento e vinte e seis anos, tanto melhor. Não, não é a mesma coisa que fazer uma selfie numa esplanada à beira-mar, mas sempre podemos fingir que somos muito cultos se nos fotografarmos nessa estação junto à tal estátua. Imaginem a quantidade de likes que vamos ter no Twitter e no facebook!

Pois bem: foi exactamente isto que pensou um palhaço qualquer – infelizmente ainda não identificado – na Segunda-feira, 9 de Maio. O cretino, que com vinte e quatro anos de idade já tinha obrigação de não se comportar como um puto com metade da sua idade, apanhou-se na estação do Rossio, em Lisboa, e, vendo a estátua de D. Sebastião num nicho entre aqueles arcos belíssimos do terminal ferroviário, decidiu que a melhor coisa que podia fazer era tirar uma selfie na companhia do rei que não voltou numa manhã brumosa (e agora é que não vai voltar, como perceberão se continuarem a ler). Vai daí o idiota trepou ao nicho e, como era mais ou menos de prever (salvo quando se é completamente estúpido, como parece ser o caso), derrubou a estátua de D. Sebastião.

A estátua, que era uma de apenas duas estátuas de D. Sebastião em lugares públicos, resistiu a um regicídio, à revolução republicana, à anarquia da I República, ao golpe de 26 de Maio e ao Estado Novo, ao 25 de Abril e a todas as manifestações que se lhe seguiram, foi deixada incólume a actos de vandalismo, mas não resistiu a um parvalhão com o seu cérebro de galinha e à psicose das selfies. A mentalidadezinha limitada do anormal não lhe permitiu mais do que fugir do local a correr, mas felizmente foi interceptado e detido. A Infraestruturas de Portugal, que administra as estações de caminhos de ferro, já deduziu queixa contra ele junto do Ministério Público.

…e depois da selfie

Ou seja: a vaidade deste cretino pode valer-lhe a obrigação de indemnizar o Estado pelo dano sofrido. Enquanto contribuinte, não espero outra coisa. Não quero que seja preso, nem nada disso, mas espero que o prejuízo sofrido – que é muito mais que o mero dano patrimonial – não seja suportado por quem nada teve que ver com o desvario estúpido e a infantilidade do indivíduo. É ele quem deve ressarcir o Estado. Diria que é um preço muito alto a pagar por uma selfie, mas o tipo merece.

O caro leitor decidirá, depois disto, se eu tenho ou não razão quando digo que as selfies são uma psicose colectiva que torna as pessoas em imbecis. Quando as selfies deixam de ser apenas irritantes para se tornarem lesivas, é caso para meditar muito seriamente. Há muitos museus e espaços em que as selfies – ou, pelo menos, o uso de paus – são proibidas, e existem decerto boas razões para que assim seja. É que as pessoas que gostam de tirar selfies têm, no geral, muito pouca coisa na cabeça e precisam de ser protegidas delas mesmas, de maneira a evitar os danos que podem provocar por serem tão estouvadas.

A leviandadade quem tira selfies fica perfeitamente ilustrada com este exemplo, mas felizmente os danos, ainda que dificilmente reparáveis, não foram de natureza pessoal. Ninguém morreu ou ficou ferido. Mas não me surpreenderia se, dentro em breve, surgissem notícias de gente que morreu ou causou mortes por procurar tirar selfies em lugares perigosos. Podia, aliás, ter acontecido já na Segunda-feira, se alguém estivesse a passar no local onde a estátua de D. Sebastião tombou.

Por tudo isto, não me digam que exagero quando exprimo a minha abominação por selfies. Todos os dias a realidade me dá razão.

M. V. M.

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