As americanices

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José (nome fictício) é um gay que acabou de sair do armário. Vivia com a mãe numa casa que, em virtude de um tsunami massivo, acabou por colapsar, matando a mãe. Sem meios, resolveu pensar fora da caixa e, em lugar de procurar emprego, como era suposto fazer, encontrou uma janela de oportunidade e abriu, com o namorado, uma pequena empresa para continuar o negócio doméstico de empadas de carne que a mãe iniciara após o falecimento do marido e pai de José. O negócio, porém, não teve êxito. Um dia, ao conversar com um amigo jornalista sobre as causas do insucesso do seu negócio, este último exclamou: «é a economia, estúpido!». E prosseguiu: «És gay, as pessoas não têm propensão para o consumo de empadas e não tens boa imprensa: é a tempestade perfeita».

Asseguro aos leitores que NUNCA lerão expressões como estas nos textos do Número f/. O que pretendi, com o parágrafo acima, foi sintetizar num pequeno texto alguns dos vícios mais recorrentes na imprensa falada e escrita.

Por que se usam expressões tão absurdas e alheias à nossa língua como «colapsar», e por que insistem em retorcer a gramática para tornar aceitável dizer-se que alguém «é suposto» fazer isto ou aquilo, alheando completamente do facto de a composição das frases na língua inglesa ser muito diferente do que se emprega no português? Antes de mais, a explicação está na pobreza – pobreza de espírito, pobreza de conhecimentos e pobreza provinciana – dos nossos redactores. São pessoas que, por serem mal formadas desde o 1.º Ciclo, não têm conhecimento suficiente do vocabulário da língua portuguesa e decidem importar palavras e expressões anglo-americanas: em lugar de dizerem e escreverem que alguém devia, ou tinha o dever de fazer algo, dizem e escrevem que esse mesmo alguém era suposto fazê-lo; onde deveriam escrever e dizer ruir ou desabar, escrevem e dizem colapsar porque não sabem que collapse e «colapso» não são palavras equivalentes nem sinónimas.

A culpa não é deles: é de quem nunca lhes disse que falar e escrever assim é um erro e de um sistema de ensino que, ao invés de despertar a vontade de aprender, afasta os alunos do conhecimento da língua portuguesa. Porque, convenhamos, ninguém gosta que se lhes imponha conhecimento à força, como se faz nas nossas escolas. Isto já vem de longe: lembro-me de uma fase da minha vida em que detestava Os Maias, por ser de leitura obrigatória (ou «mandatória», como poderia ser dito pelo pivot da RTP que é também autor de literatura barata) no 11.º Ano. Quando li Os Maias livre dessa obrigatoriedade, porém, acabei por lê-lo com gosto e relê-lo.

Depois há o factor parolice, que leva a que essa multidão de ignorantes que tem encosto nas redacções de jornais e televisões entenda que as expressões que conhecem a partir do que lêem em websites americanos são muito mais coloridas e, como diriam, impactantes; vai daí nunca se saciam de usar expressões como a janela de oportunidades ou a tempestade perfeita. E gostam também de exprimir a sua alarvidade gutural, posto que disfarçada de cultura popular, insultando os leitores: é a economia, estúpido! De facto, não há maior prazer que abrir um jornal e levar com um insulto deste calibre – mas os nossos redactores estão tão assoberbados que nem sequer se apercebem de que as pessoas, no geral, não gostam de ser apodadas de estúpidas. Mas pronto, usam estas expressões porque, com toda a superficialidade e vacuidade de que são capazes, imaginam que parecem imensamente inteligentes, espirituosos e cosmopolitas e que dominam a cultura popular global.

Outra causa está, evidentemente, na globalização e no domínio dos meios de informação pelos Estados Unidos. Há quem entenda que isto é extremamente benéfico e, em consequência, adira às formas de expressão vulgarmente empregues pela imprensa norte-americana. Claro que estas pessoas que gostam de dizer que são supostas andar actualizadas e pensar fora da caixa desconhecem que, mesmo nos Estados Unidos, as expressões que copiam e transpõem acefalamente são vulgares e, consequentemente, evitadas por quem escreve ou fala correctamente o inglês. Outra causa é a disseminação do economês, porque muitas das expressões que se usam são lidas nas colunas de economia de certos jornais e websites, mas os importadores dessas expressões, que não compreenderiam um manual de Economia de Samuelson ou Stiglitz se os tentassem ler, parecem incapazes de compreender que essas expressões são específicas da (sub)cultura americana e são usadas por gente que, convenhamos, pode ter autoridade na economia mas decerto não a tem na língua inglesa.

Isto tem um efeito em que essa gente – que é néscia ao ponto de não se aperceber das repercussões do que faz – não pensa: o alastramento destes anglicismos, neologismos e expressões e o seu uso generalizado contribui para a erosão e descaracterização da nossa língua. Mas a  superficialidade incorrigível dessas pessoas e a soberba de estarem nos média (outro anglicismo absurdo) impedem-nos de compreender que não estão a fazer nenhum favor aos leitores, ao país e a si mesmos. Ou seja, não realizam (desculpem, não resisti…) as consequências das suas acções. Claro que, para muita gente, nada disto é importante. O importante é fazerem figura de gente muito esperta e inteligente, que lê notícias da América e bebe e respira a língua inglesa. Mal sabem que estão a mostrar exactamente o contrário.

M. V. M.

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