Mais sobre Jazz e fotografia (1)

hqdefaultEu sou um privilegiado. Não por ser abastado nem por ter amigos influentes (tenho amigos que exercem influência em mim, o que não é o mesmo) ou ser espectacularmente feliz e bem-aventurado. Tenho um pouco de tudo isto, menos a abastança, mas o meu privilégio é outro: é o interesse que tenho por certas formas, altamente sofisticadas, de expressão artística. Sinto-me tocado pela fortuna por conhecer tantos autores e obras maravilhosos, mas que não são dados a conhecer a todos. E aprecio-os, medito neles e tento entender o que eles querem (quiseram) dizer. Fazem parte da minha vida, dos meus gostos, escolhas e preferências. Estão presentes em tudo o que faço. E, felizmente, tenho algumas dessas obras fisicamente comigo, sob a forma de livros e discos. É um privilégio tê-los.

Quanto à fotografia, este é um interesse que ainda está em crescimento, mas também me interessam a literatura – apesar de ter mais pretextos para não ler livros de ficção do que para lê-los – e a música. De quase todos os géneros, esta última. Sou alguém que consegue gostar de Anton Bruckner e dos The Vaccines, mesmo que não saiba ao certo o que isto diz ao certo sobre mim.

Apesar de não ter a maior colecção de discos do planeta, pode acontecer que me esqueça de que tenho determinados discos. Aconteceu-me ontem com um LP de Jazz. Que LP é esse que tão ignominiosamente esqueci ter? Blues & Roots, de Charles Mingus. Que é, de longe, o álbum mais louco que tenho. Aqueles músicos – Charles Mingus, Mal Waldron, Horace Parlan, Jimmy Knepper, Pepper Adams, Jackie McLean, John Handy, Booker Ervin, Willie Dennis e Dannie Richmond – são simplesmente brilhantes, e qualquer deles escreveu uma (ou várias) páginas na história do Jazz, mas neste Blues & Roots estavam todos eles possuídos de uma loucura que torna este no álbum de Jazz mais divertido que tenho. «Divertido», não por ser hilariante ou pouco sério (Charles Mingus era tirânico nas suas exigências para com os músicos, chegando à violência física), mas por ser um álbum em que se sente o entusiasmo dos instrumentistas como em poucos. Charles Mingus, Horace Parlan e Booker Ervin, em particular, atingiram um momento muito alto das suas carreiras com a gravação de Blues & Roots.

Mas não foi bem por todo este virtuosismo que resolvi escrever sobre este álbum genial num blogue sobre fotografia. Foi mais por causa da capa do álbum. Mais exactamente por causa da fotografia que ocupa a quase totalidade da capa, com o rosto de Charles Mingus bem destacado, de olhos cerrados, apenas com o braço de um contrabaixo a lutar pela atenção de quem a vê. A fotografia é de Lee Friedlander. Curiosamente, dois dias antes tinha estado a ouvir outro grande álbum – desses cuja propriedade faz de mim um privilegiado – com uma fotografia de Lee Friedlander na capa: foi o Giant Steps, de John Coltrane.

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Ornette Coleman por Lee Friedlander

Já me referi à relação estreita que existe entre Jazz – ou, pelo menos, a época de ouro do Jazz, que foram os anos 50 e 60 do século passado – e a fotografia; incluí entre aquelas que considerei as quinze melhores de sempre uma fotografia de Francis Wolff que figura na capa de um álbum da Blue Note, apesar de o mundo da fotografia não ter o mesmo tipo de consideração por fotografias como esta. Mas eu tenho. Podem ser fotografias feitas com o propósito de ilustrar capas de LP’s, mas são muito mais que meros ficheiros gráficos. Há, nos bons fotógrafos de Jazz, uma maneira de mostrar os músicos que considero única. Francis Wolff fotografou os músicos e as suas atmosferas, mas Lee Friedlander foi mais longe e fotografou-os por vezes sem referências ao mundo em que se moviam: fotografou rostos e, sobretudo, fotografou espíritos. A fotografia de Mingus a que me refiro é estudada, é uma pose – mas revela-nos Charles Mingus, mostra a sua relação com a sua própria música e diz-nos muito sobre o homem.

A fotografia de Jazz tem os seus mestres. Será sempre secundária em relação à música, não lhe sendo permitido ultrapassar a função de documento, mas alguns dos seus fotógrafos, ainda que conscientes da subalternidade da fotografia, criaram obras excepcionais. Lee Friedlander é um deles. (Continua)

M. V. M.

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