Mais sobre visores, parte 1

https://i1.wp.com/www.tipografos.net/fotografia/Barnack2.jpg
Dr. Oskar Barnack, inventor da Leica de formato 135

No último texto referi-me ao visor das Leica da série M em termos que podem ser considerados um pouco depreciativos. Penso que este é um tema que merece algum desenvolvimento, apesar de tudo o que vou escrever ser ditado apenas pela minha experiência de utilizador – que é relativamente limitada – e de não partir de um ponto de vista técnico. Os visores, afinal de contas, são o que nos põe em contacto com o motivo quando fotografamos, pelo que não são de pouca importância. Por outro lado, os visores ópticos podem muito bem ter os seus dias contados à custa de uma ideia falsa de progresso, mas já lá vamos: antes disso, deixem-me explicar o que quis dizer quando escrevi que «[a] teimosia dos alemães em tentar tornar competitivas tecnologias ultrapassadas com mais tecnologias é perfeitamente exemplificada pelas Leica M».

O visor das Leica M é, na sua essência, uma simples janela para ver o motivo, mas houve vicissitudes que determinaram que se tornasse em muito mais do que um orifício aberto na câmara com uma porção de vidro em cada extremidade. A sua colocação no corpo da câmara e o facto de esta dever ser usada com uma variedade de distâncias focais obriga, desde logo, a que exista um factor de redução da perspectiva; sem isto, o visor não poderia dar uma leitura fiel do motivo quando se usassem lentes grande-angulares.

O facto de terem de ser usadas diversas lentes implica uma enorme complexidade do visor: existem corpos equipados com visores de diferentes factores de ampliação (ou de redução, o que é mais correcto), sendo que alguns funcionam com determinadas distâncias focais, mas não com outras. Às diferentes lentes correspondem linhas delimitadoras do enquadramento que são sobrepostas ao visor. Ora, sendo assim, temos que uma grande-angular de 15 mm fará com que o motivo ocupe a quase totalidade da janela do visor, enquanto com uma teleobjectiva aquele ocupará uma porção ínfima do centro do enquadramento visível. Isto explica por que as Leica M não podem usar lentes de distância focal maior que 135 mm: como a imagem visível através do visor não é ampliada, tornar-se-ia impossível perceber o que se está a fotografar quando se usassem teleobjectivas maiores que 135 mm. (Estas câmaras também não podem usar lentes zoom porque é impossível fazer com que as linhas do visor coincidam com cada distância focal da lente.)

A colocação do visor no canto esquerdo do painel traseiro do corpo tem dois inconvenientes: como não está alinhado com a lente, é inevitável a ocorrência de um fenómeno denominado paralaxe. Esta é corrigida por via electrónica e de forma automática, mas é mais uma complicação tecnológica a contribuir para o encarecimento do sistema. Além disto, não há maneira de evitar que se veja a porção superior esquerda da lente – o que, evidentemente, é tanto mais grave quanto mais comprida esta última for. É por esta razão que os para-sóis das lentes Leica M são perfurados: caso contrário, obstruiriam a visão.

O auxílio à focagem é feito com recurso a um aparelho que mede a distância entre a câmara e o motivo. Este aparelho, que é incorporado nas Leica M desde o modelo M3, denomina-se telémetro. Para auxiliar a focagem, o sistema sobrepõe uma segunda imagem, ou imagem-fantasma, visível no centro do visor, sendo que a focagem ideal é obtida quando esta segunda imagem fica perfeitamente justaposta à imagem visualizada através do visor. O que significa que as Leica M são tão rudimentares como os teodolitos que existiam antes de os geólogos usarem estações totais.

Por tudo isto, parece-me não ser demasiado injusto dizer que o visor de telémetro é uma imperfeição optimizada. A comparação que fiz com o Audi Sport Quattro de ralis não é leviana nem despropositada: em ambos os casos, tratou-se de tentar compensar os inconvenientes óbvios de uma concepção técnica inadequada introduzindo doses maciças de tecnologia.

Sou também da opinião que a única justificação para ainda existirem câmaras com visor telemétrico é a nostalgia. Esta tecnologia foi muito melhorada pela Contax, que lhe juntou a focagem automática e a adaptação automática do enquadramento do visor a cada lente – algo que a Leica, por «purismo», nunca fez –, mas ao fim e ao cabo a tecnologia do visor telemétrico foi superada por outra que só tem vantagens: a do visor reflex, em particular quando conjugado com um pentaprisma. (Continua)

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s