A Leica M-D

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Aqui está uma câmara sobre a qual não sei muito bem que pensar. É uma Leica com visor de telémetro – o que é uma imperfeição, quando comparada com um visor óptico reflex –, mas é digital. Mas é um tipo de câmara digital purista, o que à primeira vista parece ser uma contradição nos termos. Uma câmara digital com um sensor full frame de 24 MP (tanto quanto sei os sensores da Leica são feitos por uma empresa belga chamada CMOSIS), mas sem vídeo, sem processador JPEG – consequentemente, só fotografa em Raw – e, sobretudo, sem ecrã. É verdade: tal como as M6, M7 e MP, esta câmara tem um comando da sensibilidade ISO onde outras câmaras digitais têm um ecrã.

Ainda não sei se isto é bom ou mau. O ecrã dá jeito quando se fotografa à noite, com um tripé, mas de facto não é indispensável, como qualquer pessoa que tenha alguma vez feito fotografias com sucesso usando uma máquina de película sabe. O que o ecrã trouxe de novo foi, além da visualização directa – algo a que as DSLR resistiram durante muito tempo –, a possibilidade de ver imediatamente a fotografia que acabou de se fazer. Ou seja, o chimping.

É esta a minha dúvida: depois de se saber que o chimping existe, nunca mais se usa outro modo de proceder: tira-se a fotografia e de imediato vê-se se ficou do nosso agrado. Não é preciso esperar pela revelação nem pelas impressões (ou digitalizações). Isto é, sem dúvida, um benefício – mas só para quem aprecia a gratificação instantânea. O que não acontece com toda a gente.

Com efeito, para alguns o acto de regular manualmente a câmara e disparar sem ter completamente a certeza de que tudo foi bem feito é um propósito em si. Não por ser a via mais difícil, mas por se aprender muito ao fotografar assim. E também porque a satisfação de fazer boas fotografias é mil vezes superior. As câmaras digitais, com todos os seus algoritmos, fizeram esquecer o prazer de acertar em cheio fazendo uma boa fotografia. O chimping torna-nos preguiçosos e pouco exigentes: se falharmos uma fotografia, fazemos outra de imediato sem nos preocuparmos excessivamente com o que correu mal na primeira tentativa. De facto, assim dificilmente se aprende seja o que for.

Deste modo, uma câmara digital como esta Leica M-D faz sentido. O problema é que se destina a um público imaginário, composto por puristas ricos dispostos a pagar €6.000 euros – e outro tanto por cada lente que adquirirem – para usar uma câmara com a qual não podem chimpar (palavra que inventei agora mesmo, a menos que tenha sido inventada antes por outra pessoa). Não sei se existe muita gente que corresponda a este perfil.

E eu? Compraria esta câmara? Eu tenho as minhas objecções aos visores de telémetro: a focagem é rudimentar e não há qualquer controlo sobre a profundidade de campo. O visor das Leica M, com as suas linhas delimitadoras do enquadramento e a correcção da paralaxe, é como o Audi Sport Quattro que correu nos ralis em 1985 e 1986: apesar de ser batida pelos carros com motor central (Peugeot 205 Turbo 16 e Lancia Delta S4), a Audi continuou a teimar no motor longitudinal dianteiro, evoluindo a aerodinâmica do carro e aumentando a potência de maneira a compensar os desequilíbrios criados pela colocação do motor, mas nunca conseguiram. O automóvel foi sempre demasiado subvirador e pesado e era necessário ser um prodígio da condução – ou seja, um Walter Röhrl – para conseguir alguns bons resultados. Esta teimosia dos alemães em tentar tornar competitivas tecnologias ultrapassadas com mais tecnologias é perfeitamente exemplificada pelas Leica M.

Fora isto é uma Leica – uma câmara de enorme qualidade de construção e que obriga a aceder às melhores lentes do mundo. Eu não desdenharia uma câmara destas, mas se o propósito da M-D é atingir bons resultados por a falta de visualização da imagem obrigar a dominar a exposição – aparentemente é este o conceito de «fotografia pura» da Leica e é purista quem a pratica –, penso que faria mais sentido usar uma Leica MP. O dinheiro que pouparia (cerca de 2000 euros) daria para comprar centenas de rolos e pagar as respectivas revelações e digitalizações.

M. V. M.

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5 thoughts on “A Leica M-D”

  1. É um artigo interessante Manuel, mas penso que fazes demasiados juízos de valor em vez de levantares questões. As máquinas telemétricas não são para todos, mas daí proclamar-se que são imperfeitas vai um passo e grande. Eu não gosto de rótulos, são inúteis, por cada rótulo que ponhas nas telemétricas (ou outro sistema) haverá sempre alguém que te provará o contrário. Isto acontece porque cada máquina trabalha a favor do fotografo, não contra. Por isso temos gente que adora SLRs e outros que juram pelas telemétricas. Seja como for, a Leica M-D não me parece a melhor justificação para se fazer uma reflexão sobre as telemétricas. Da mesma forma, o Audi Quattro não foi a Leica M da altura, foi a Minolta Dynax 9000 (de 1985), foi o primeiro em muita coisa, mas houve quem viesse depois e transformasse o conceito em algo muito mais coerente e eficiente (Canon EOS!).Chamar de rudimentar um sistema telemétrico para focagem é algo que não lembra ao diabo. Era o telémetro que equipava os submarinos para vigiar o alvo e efectuar os cálculos para o lançamento dos torpedos. A ultima grande máquina do estilo Leica, a Contax G, utilizava um sistema Autofocus com um telêmetro motorizado.

    Qualquer questão que toque em dinheiro quando se fala de Leica é de mau gosto. É como dizer que o custo da revisão do Aston Martin pode comprar um andar. É coisa sem importância para quem os compra, e da mesma forma que um Chevrolet Spark por 8000 € me dá acesso a 4 rodas novas e me leva de A a B, não será por isso que vou por o Aston fora dos meus sonhos.Nem tudo se mede com dinheiro e por muito que custe, uma Leica já há muito que não obedece a lógicas de mercado ou de bom senso.

    Voltando à Leica M-D, eu creio que a mensagem é clara: fazer uma M digital em que apenas o suporte de registo da imagem seja digital. A ideia parece-me boa, claro que serve para extorquir mais uns milhares à custa do less is more, mas vai ao encontro de muito boa gente (como eu) que gostaria de ter o “feeling” das maquinas de outros tempos e o suporte digital. Como já te disse, não pratico o “chimping”, nunca revejo as fotos na máquina, de que serviria se eu fotografo em RAW e exclusivamente fotografia de rua. Não posso chamar as pessoas para que voltem para trás, parar o tempo, é uma prática fútil neste estilo de fotografia. No meu caso, uso o LCD exterior para enquadramentos, não para rever fotos. A filosofia desta Leica interfere com a composição ou ponto de vista. Os visores externos, muitos orientáveis, fazem de visor de peito do antigamente, autorizando pontos de vista originais, sem ser à altura do olho. Por esta razão, mesmo que eu tivesse possibilidades financeiras, nunca compraria esta Leica, retira criatividade. A minha filosofia é ficar com o melhor dos dois mundos, o digital da-me a fruição gratuita da fotografia, a liberdade do enquadramento graças aios visores externos, privar-me disto por causa duma pseudo tradição da fotografia química é burrice.

    Para terminar, não me parece que o busílis da questão se prenda com o ecran ou a falta dele. Para a malta que quer experimentar uma máquina parecida, só têm de comprar plástico autocolante preto e tapar o malfadado ecran, fica um pouco mais barato do que a Leica M-D e faz o mesmo. Não, o problema aqui é a falta de auto-disciplina, a falta de confiança no acto fotográfico, a pressa incompreensível do imediato.

    1. Paulo, ainda tens de explorar melhor o Planeta Número f/. Há-de chegar um ponto em que vais descobrir que por vezes uso algum sarcasmo e muitas hipérboles (leia-se “exageros”). São liberdades de estilo que por vezes tomo e nem sempre são bem compreendidas. Espero que não leves à letra o que eu escrevi no blogue quanto a o fotómetro ser um “tirano malvado” que conspira para sabotar as minhas fotografias!
      Dito isto há aqui dois ou três problemas. O primeiro é que eu não disse – ou, se o escrevi textualmente, exprimi-me mal – que a tecnologia do telémetro é rudimentar. O que é rudimentar é o visor óptico simples – a janela para a cena – que está na génese do visor telemétrico. É evidente que este visor é imperfeito: tem paralaxe, não permite ter uma noção sobre a profundidade de campo nem que se componha com rigor. A Leica aperfeiçoou um conceito inerentemente imperfeito à custa de muita tecnologia (daí a analogia com o Audi Sport Quattro) adicionando-lhe o telémetro, as linhas delimitadoras do enquadramento ajustadas à distância focal e a correcção automática da paralaxe, mas é como os britânicos dizem: “two wrongs don’t make a right”. Esta tecnologia toda não tornou o visor melhor que o das SLR. Mas esta, nota bem, é a minha opinião, forjada depois de uma experiência considerável com uma câmara de visor de telémetro (Minolta 7S) e com uma SLR. Do meu ponto de vista – e pese ter ficado extremamente agradado com o visor de algumas Leica M que experimentei -, o visor de telémetro não é melhor que o sistema reflex. Como disse, é a minha opinião. Só isso. A única diferença em relação a outras opiniões, provavelmente tão ou mais asininas que a minha, é estar escrita, para o bem e para o mal, na internet.
      De resto, nada tenho a dizer. Apreciei, em especial, a crítica que fazes à falta de auto-disciplina e à “pressa incompreensível do imediato”. Eu não teria escrito melhor!
      Abraço,
      M. V. M.

      1. Obrigado pela resposta Manuel! Realmente, se havia ironia, passou-me ao lado! Sem querer ser chato, eu acho que tu não conheces suficientemente bem os sistemas telemétricos. A questão não é saber qual é melhor, o sistema reflexo é de utilização universal, enquanto que o telemétrico já não o pode ser. Ninguém no seu juízo fará fotografia macro ou de reprodução com uma telemétrica, embora os fabricantes tenham apresentado dispositivos para esse efeito. Ninguém pode contestar que é impossível ter uma ideia da profundidade de campo com um visor directo, seja telemétrico ou não. No entanto, os outros casos que apresentaste não são tão lineares como isso. Raramente se põe o problema da paralaxe com um visor do tipo Leica, pois ele apenas cobre entre 80 a 90% da imagem, logo, em principio há imagem que chegue e sobre para compensar a paralaxe ou outras imprecisões de enquadramento. Rigor absoluto no enquadramento é muito difícil, mas também o é nas reflexas que não têm 100% de cobertura da imagem e essas contam-se pelos dedos das duas mãos.

        Ao contrario do que possas pensar, não foi a Leica quem incorporou primeiro o telémetro numa máquina de visor directo, aliás, tirando as linhas de enquadramento automáticas (de acordo com a focal) nem estou a ver grande contributo da Leica para o desenvolvimento da formula rangefinder. A Leica M3, surgida em 1954 praticamente morreu igual ao que era, com outro nome (M6), com um fotometro TTL e com diferenças de detalhe, sobretudo para diminuir custos de produção. Não se pode dizer que a Leica tenha feito uma grande caminhada (não fora a M5 tão mal nascida e talvez…), a Nikon foi bem mais virulenta quando produzia apenas telemétricas.

        Bom e agora não resisto a picar-te um bocadito! Tu és um bocado dado às dicotomias, é o bom e o mau, o filme e o diabo do analógico, são os títulos belicistas dos artigos “Guerra, Batalha”, são as reflexas Uber Alles , mas li num dos teus artigos que o fotografo que utiliza filme era superior porque tinha uma tarefa mais dificultada com o uso de película, logo, tinha um conhecimento superior, uma capacidade de se sair melhor do que os outros porque não tinha a vida simplificada (como esses hereges do digital!). Ora, então que me dizes dos fotógrafos que utilizam as telemétricas, esse sistema rudimentar e imperfeito, que os obriga a imaginar profundidades de campo, delimitações e enquadramentos, não serão ele também muito mais dotados do que os que fotografam com SLRs? Sim, esses da vida airosa, da focagem quase instantânea, do controlo da profundidade de campo em tempo real, livres do ogre da paralaxe, não serão esses (à luz do teu raciocínio) fotógrafos contaminados, impuros ou menos puros do que os que utilizam rangefinders?

        Agora vou por-me aqui à espera que tomes a cicuta!

        Abraço!

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