A Chica Guapa, o homem do realejo e o Judas de Thomas Hardy: onde o autor relata mais uma derrota da arte diante do mercantilismo

Ontem aconteceu-me ter de tomar uma decisão diante de um dilema ético aparentemente – mas só aparentemente – insignificante. Passei, devidamente equipado com a máquina fotográfica, por uma rua pedonal do Porto na qual, a cada cinco metros, se estacionam cantores, artesãos, estátuas vivas, malabaristas, acrobatas ou mesmo simples pedintes sem outro talento que não seja pedir (e mesmo assim fazem-no mal). A menos que sejam particularmente interessantes, costumo ignorar estes artistas. Não dão, por regra, boas fotografias, e as suas performances costumam ser risíveis.

Ontem, contudo, vi uma rapariga vestida num estilo entre o medievo e o gótico que tinha na mão duas esferas penduradas de cordéis, as quais iria decerto manusear com um propósito circense qualquer. Tentei seguir caminho fingindo não a ver, como normalmente faço com estes performers de rua, mas não consegui. Não podia fingir que não a tinha visto. É que a rapariga, que se exprimia em castelhano com o seu parceiro de malabarismos, era lindíssima. O rosto moreno, os olhos rasgados, penetrantes, as feições, com as maçãs do rosto proeminentes, o cabelo curto e negro – muito mais que guapa, era verdadeiramente bela (podem acrescentar um L para a expressão equivalente em castelhano). Tanto que não resisti. Não gosto de fazer retratos e, se calhar, o que verdadeiramente queria era travar conhecimento com ela, mas decidi que queria fotografá-la. Como não tenho lata para pôr a câmara à frente da cara de uma pessoa sem dizer água-vai, pedi-lhe consentimento para fotografá-la.

A resposta que obtive não podia ter sido mais decepcionante. A rapariga, balbuciando uma palavra qualquer – penso que money –, apontou para um boné que estava no chão, invertido, para recolher as moedas que os turistas atirariam. Dizer que fiquei desiludido é um eufemismo: a sensação que aquele gesto me causou foi semelhante à de ser acordado a meio da noite, durante um sonho agradável, por um vizinho bêbado. Evidentemente, recusei e afastei-me, fazendo-a ver, num castelhano não muito fluído, que não ia pagar para fazer uma fotografia.

De facto, era o que faltava se tivesse de pagar para tirar uma fotografia à chica! Se eu fosse um profissional e ela um modelo, podia pensar nisso, mas ela não é um modelo: é apenas uma mendiga. Sim, porque quem pede na rua são os mendigos. E uma mendiga que, com a sua venalidade (e apesar de se arrogar o estatuto de artista), se aproxima da prostituição – uma prostituição em sentido lato, nada carnal, mas em todo o caso uma venda de si mesma. Ora, eu nunca paguei pelo prazer de fotografar; não é agora que vou começar a fazê-lo, por mais bonita que a rapariga seja.

Img - 032

Já me aconteceu um caso em que paguei a um desses mendigos disfarçados de artistas para fotografá-lo. Quem anda pelo Porto já viu certamente um homem tocando realejo acompanhado da filha criança e de um papagaio. Uma vez quis fotografá-lo; não por ele, pelo realejo, pela criança ou pelo papagaio, nem pela conjunção de todos, mas sobretudo pela forma como estavam enquadrados. Atirei vinte cêntimos para o chapéu (por que raio têm todos de usar um chapéu para recolher as esmolas?) e fotografei-o, mas isto foi muito diferente do que aconteceu com a chica guapa. No caso do homem do realejo, eu quis pagar; foi uma oferta, um acto voluntário e espontâneo. É possível que ele tivesse prestado o seu consentimento mesmo se eu não tivesse dado nenhuma moeda, mas seja como for ele não cobrou nada por se deixar fotografar. A chica, essa, deixou muito claro que o seu consentimento dependia do pagamento. É por isto que o gesto dela me parece tão perto da prostituição. A sua atitude pareceu-me simplesmente intolerável.

Em todo o caso, quis fazer arte e deparei com mercantilismo. A minha desilusão só tem comparação com a da personagem Judas de Judas, O Obscuro, de Thomas Hardy. Num capítulo deste romance, Judas integra um coro que ensaia um cântico, o qual parece tão belo à personagem que esta decide fazer uma viagem para conhecer o seu compositor. Quando o encontrou, o compositor falou do seu cântico com desdém e contou a Judas que deixara a música porque não ganhava dinheiro com ela e se havia dedicado ao negócio das bebidas alcoólicas. O mercantilismo, aparentemente, ganha sempre. Como Thomas Hardy terá decerto exclamado bastas vezes, oh well

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s