Afinal o que é o «momento decisivo»?

Henri Cartier-Bresson por George Hoyningen-Huene (1935)

Há pessoas que têm uma compreensão deficiente do que lêem. E há pessoas que, por causa dessa compreensão deficiente, apresentam interpretações do que lêem que estão muito distantes do sentido objectivo das palavras que leram. Estas pessoas mais parece que fazem um esforço para conformar as palavras que leram às suas próprias ideias. Há aqui quase uma apropriação das palavras, desviando-as do seu sentido normal e convertendo-as noutra coisa qualquer que se adequa às ideias do intérprete.

Um caso muito flagrante na fotografia é o do momento decisivo, conceito atribuído a Henri Cartier-Bresson. Apesar de este mestre se ter definido a si mesmo como um budista não resignado, gostando de esculpir frases como «Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração» (convenhamos que é uma frase um bocadinho pirosa…), Henri Cartier-Bresson tinha ideias muito concretas sobre estética e composição, que forjara enquanto jovem nas suas visitas a museus, nas quais estudava as pinturas e desenhos.

O momento decisivo, como Cartier-Bresson o entendia, não pode ser resumido ao instante em que algo acontece e, se não for capturado, não se volta a repetir. Isto também faz (ou pode fazer) parte do «momento decisivo», mas esta noção não se refere apenas ao evento fugidio em si, mas sobretudo à organização da imagem. Já me aconteceu ver gente a justificar o uso do disparo contínuo como forma de assegurar que o «momento decisivo» é capturado, mas isto é apenas uma parte da questão (além de ser uma daquelas apropriações indevidas que referi mais acima).

O «momento decisivo» não é o que muitos pensam. Alguns, dado o carácter sugestivo desta expressão, imaginam que o importante é capturar um dado acontecimento a qualquer custo. Esta forma de pensar pode ser importante em certos tipos de fotografia, mas reduz tudo a uma questão de documentar um determinado acontecimento. Um bom fotógrafo – mesmo aquele que se dedica a documentar momentos, como o fotojornalista – leva o seu conceito de fotografia mais longe do que a mera prova de que algo se passou num determinado momento diante da sua câmara.

A concepção fotográfica de Henri Cartier-Bresson é extremamente elaborada do ponto de vista intelectual e artístico. A sua formação artística, além de se fundar na observação de pinturas e desenhos já referida, foi influenciada pelas correntes do tempo da sua juventude, a saber o dadaísmo (do qual recolheu muito pouco) e o surrealismo. Com esta formação, não surpreende que a composição, que é fundamental na pintura e no desenho, tivesse uma importância primordial na fotografia de Henri Cartier-Bresson.

Na fotografia, a composição é tudo. Fotógrafos como Cartier-Bresson e muitos outros (poderia citar aqui um rol que iria de William Albert Allard a W. Eugene Smith) não se tornaram conhecidos por disparar instintivamente, mas sobretudo por saberem reconhecer o verdadeiro momento decisivo. Esse momento é aquele em que um ou mais dos elementos presentes no enquadramento se conjugam para formar uma composição significativa. Pode ser uma pessoa a saltar uma poça, um simples olhar ou o instante em que um campónio deita o vinho no seu copo, mas é algo que acontece dentro das linhas delimitadas pelo visor da câmara e confere significado a uma certa cena. Ora, discernir este momento decisivo é muito mais difícil do que parece, pois há que, instintivamente, reconhecer o valor de uma determinada cena e enquadrá-la de forma a que o resultado seja uma imagem estética e cenicamente relevante.

henri_cartier_bresson_bicycle

Tomemos, para tornar a compreensão mais simples, o exemplo da fotografia acima: Cartier-Bresson soube, intuitivamente, que a passagem do ciclista no exacto lugar onde figura na imagem criaria uma composição dotada de interesse fotográfico. Obter esta fotografia implicou, além da identificação do interesse da fotografia, esperar até que o ciclista atingisse aquele ponto. Aqui não se tratou de capturar uma imagem que, de outro modo, se teria perdido para sempre: ciclistas havia-os aos milhares e não há decerto – pelo menos assim a a olho nu – nada que torne aquele ciclista, ou a sua bicicleta, particularmente interessante, pelo que o momento decisivo não foi a passagem do ciclista – foi a passagem do ciclista naquele lugar. Porque só ali fazia sentido fotografá-lo e o espaço cénico não teria qualquer interesse sem o ciclista. Neste caso, o motivo e o enquadramento conjugaram-se para formar uma composição fotográfica; o momento decisivo foi aquele em que a posição do ciclista no enquadramento criou uma fotografia válida.

Como vêem, o momento decisivo é muito mais do que simplesmente capturar algo numa fotografia. É reconhecer, numa fracção de segundo, o instante em que tudo vai cair no seu devido lugar, formando uma composição com interesse artístico.

M. V. M.

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