Da inutilidade dos livros de fotografia digital

15336868281_da4de6583f_b

Ontem tive uma daquelas ideias que por vezes me atingem como se fossem raios caindo sobre cata-ventos em plena tempestade eléctrica. Ou seja, uma ideia fulminante. A ideia é a seguinte: é uma estupidez escrever livros para ensinar a fotografia digital.

Com efeito, a fotografia digital é demasiado simples – ou, pelo menos, tão simples que não requer qualquer tipo de aprendizagem. Escrever um livro ensinando a fotografar no domínio digital é, assim, o mesmo que escrever um manual sobre lavar os dentes ou apertar os atacadores dos sapatos. (Com a falta de desenvolvimento de aptidões das nossas crianças à custa dos telemóveis e das PlayStations, é bem possível que no futuro surjam livros como estes nos escaparates, juntamente com outros como «Pentear o Cabelo em 10 Lições».) A fotografia digital não tem ciência nenhuma e tudo o que é preciso saber sobre ela já existia no tempo da fotografia analógica.

Estes livros são inúteis por outra razão: os profissionais e os amadores sérios já sabem tudo o que está neles, e os demais escolheram fotografar digital porque basta apontar a lente a uma cena qualquer e carregar num botão. Não há ciência nenhuma em carregar num botão. O Michael Freeman e o Joel Santos não trouxeram nenhuma contribuição ao mundo da fotografia. Claro que há a edição de imagem, mas quem é que não sabe usar o Lightroom? Aquilo é a coisa mais simples que pode existir!

A compra de livros que ensinam a fotografia digital é, deste modo, uma perda estúpida de tempo e de dinheiro. Se formos a ver bem as coisas, o que se tem de aprender na fotografia é a exposição: a abertura, o tempo de exposição, a sensibilidade ISO, a lei da reciprocidade e a medição. O resto não é importante ou não se pode ensinar. É impossível ensinar alguém a ter sensibilidade ou a ser original: estas são qualidades que se têm ou não e que, se não se tiverem, não vão decerto ser adquiridas a ler um livro do Joel Santos (a leitura deste só servirá para se ficar com ideias ridículas, como fotografar hindus e paisagens banais).

Até agora estive sobretudo em modo sarcástico, mas sempre com a esperança de que o leitor inteligente – noção que abrange todos os meus leitores – compreenda que há uma torrente de seriedade correndo sob as palavras jocosas. É que a fotografia digital não tem nada que saber. A única coisa que trouxe de verdadeiramente novo foi o equilíbrio dos brancos, mas isto não faz – ou não devia fazer – parte do acto de fotografar. Accionar o equilíbrio das cores na câmara só é possível quando se fotografa ficheiros JPEG, o que, como sabemos, é coisa para ignorantes. As pessoas que fazem por merecer o seu lugar no seio da humanidade fotografam em Raw.

A prova do que estou a dizer é que os cursos de fotografia a sério se baseiam na fotografia analógica, compreendendo expor película e revelá-la. Poderão perguntar por que são usados métodos tão obsoletos na pedagogia fotográfica, mas esta é uma pergunta que, por a resposta ser tão óbvia, nem sequer devia ser feita.

É que a fotografia é luz. Esta sua essência é mais facilmente compreendida quando se usa um meio que é sujeito a transformações físicas – a emulsão – por acção da luz. Num sensor, tudo o que acontece é a luz ser capturada pelos fotodíodos e convertida em impulsos eléctricos. Não há nenhuma magia nisto: é tudo electrónica e, como tal, só interessa aos nerds. Numa emulsão, por seu turno, há uma modificação na estrutura molecular da superfície sensível à luz cujos resultados se tornam visíveis na revelação. O escrever com luz que é o étimo de Fotografia só acontece verdadeiramente com a fotografia analógica. Na fotografia digital tudo o que existe é uma transferência e processamento de dados, o que, convenhamos, é demasiado prosaico e não permite aprender muito sobre a natureza da luz.

Compreender a fotografia analógica – o que pressupõe entender a luz – dispensa a aquisição de conhecimentos ulteriores para dominar a fotografia digital. Quem controla uma máquina fotográfica de película não terá quaisquer dificuldades em manusear uma câmara digital. Já o oposto não é verdadeiro: o digitalista nativo poderá sentir-se perdido e inseguro se lhe puserem uma máquina fotográfica de película nas mãos.

Por tudo isto, escrever livros sobre fotografia digital é inútil – mas não tanto como lê-los.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s