25 de Abril e outras histórias

1. Não costumo ir às celebrações do 25 de Abril. Também não vou dizer que foi o dia mais feliz da minha vida, porque tinha dez anos e nesse dia não compreendi o alcance do que estava a acontecer. Não o comemoro porque as comemorações remetem para efemérides e o 25 de Abril não é uma efeméride: é o dia mais importante da história de Portugal do Século XX e é, não apenas uma data, mas um ideal. E os ideais não devem morrer. Não morrendo, não podem ser efemérides. Podem celebrar-se como aniversários, mas a oficialidade das celebrações lembra mais efemérides do que aniversários.

Em todo o caso, este ano deu-me para andar pela Baixa do Porto na tarde de 25 de Abril. Há alguns anos que não via tanta gente com cravos vermelhos, nem tantos destes a ser vendidos. Não é – não foi – uma questão de moda: as pessoas este ano sentem-se mais livres para celebrar o 25 de Abril. Talvez por causa dos acordos parlamentares que uniram a esquerda, ou talvez por o ambiente político, social e económico ser agora mais respirável que há apenas um ano, celebrar o 25 de Abril fez mais sentido para toda aquela gente que hoje se ornamentou com cravos vermelhos.

cravovermelho2. Sei perfeitamente o que estou a dizer. Em 2009, resolvi aceder ao convite da Câmara Municipal do Porto para as celebrações oficiais do 25 de Abril nos Paços do Concelho. Espantosamente, fui a única pessoa que levou um cravo vermelho na lapela. Senti-me como se estivesse nu numa praça do centro da cidade em hora de ponta. Ouvir o discurso do então presidente da câmara foi como se estivesse a ouvir uma conferência sobre a liberdade dada por Rudolf Höss. No final, um amigo apresentou-me ao vereador do CDS, um tal Sampaio Pimentel. O vereador pôs-se em fuga depois de, sem sequer se esforçar por disfarçar a sua repugnância por ver o cravo, me apertar a mão. Meus amigos: esses tipos do CDS (e muitos do PSD) são fascistas. A sua ideologia não tem outro nome. Por eles não haveria liberdade, a não ser a deles e a dos donos dos interesses que eles representam. São sinistros. E são primários: se eu tinha um cravo na lapela, só podia ser um perigoso comunista. De certa forma, o dia em que o povo do Porto elegeu Rui Moreira e o dia da tomada de posse do actual governo foram dois pequenos 25 de Abril.

3. Ontem e hoje caminhei muito pela Baixa do Porto. Vi, como era previsível, as habituais chusmas de turistas, muitos dos quais pareciam levar a peito a sua missão de photobombers. Contudo, as actuais invasões de turistas fizeram-me esquecer uma praga bem mais nociva que ataca o Porto aos domingos e feriados: os parolos que vêm à cidade. Os turistas podem ter muitos defeitos, mas nunca nenhum turista se pôs a olhar para mim obsessivamente, com um ar completamente estúpido e a demorar-se ostensivamente à minha frente quando eu estava a enquadrar com a câmara. Isto aconteceu-me ontem com um desses parolos – ou melhor, com uma parola. A expressão de estupidez da criatura era indescritível. Tive de lhe pedir que saísse da minha frente para que finalmente deixasse de olhar para mim com ar de lorpa. Os turistas, ao menos, sabem o que é querer tirar fotografias. De repente, os turistas começaram a parecer-me mais simpáticos…

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s