Isto não é uma guerra (continuação)

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Voltando ao tema do texto de ontem, i. e. a guerra que alguns imaginam existir entre os domínios analógico e digital, não deixa de ser interessante tentar compreender a mente dos partisanos mais estrénuos dos dois domínios.

Quanto aos digitalistas, a sua apreciação dos meios de reprodução de som e imagem analógicos está carregada de preconceitos: segundo eles, as fotografias feitas com película ficam sempre desfocadas, fotografar com película é para ricos e, evidentemente, todos os que usam película são hipsters – gente destituída de sentido prático que se recusa a viver no presente e não tem noção do futuro. Os LPs, por seu turno, desgastam-se ao fim de duas audições, ficam riscados só de se lhes tocar, o som ou é borratado ou insubstancial e áspero e as pessoas que os compram são, evidentemente (e sem querer ser repetitivo) hipsters destituídos de sentido prático que se recusam a viver no presente e não tem noção do futuro. A ideia de haver gente com menos de sessenta e cinco anos a usar película e a ouvir vinis é tão absurda que os analoguistas só podem ser excêntricos merecedores de irrisão.

É necessário dar um desconto a quem pensa assim. Muitas destas pessoas têm a infelicidade de nunca ter visto uma fotografia feita em condições decentes (ou de não saberem que essa fotografia foi feita com meios analógicos) e de nunca ter ouvido um bom disco de vinil através de um sistema de reprodução adequado. Daí que preencham o espaço vago no seu conhecimento com ideias adquiridas sem que a elas corresponda a comprovação pela experiência. Muitos dos que têm estes preconceitos – no sentido de pré-conceitos, sem carga valorativa – perdem-nos quando lhes mostram o que um gira-discos minimamente decente é capaz de fazer e quando têm nas mãos uma boa máquina fotográfica analógica. (Quando penso nisto, lembro-me sempre da expressão impagável do meu amigo Hendrik Lohmann quando, para contrariar a sua ideia de que o uso da OM implicava que estivesse preparado para falhar muitas fotografias por causa da focagem manual, lhe passei a minha máquina para as mãos depois de uma breve prelecção sobre ecrãs de focagem.)

Para que esta perda dos preconceitos aconteça – e tal não tem forçosamente de implicar uma conversão ao analógico, embora esta possa acontecer – é necessário que essas pessoas que nunca conheceram outros meios que não fossem os digitais tenham uma mente aberta, o que não acontece com toda a gente. Há alguns que se recusam a ver qualquer qualidade nos meios analógicos: para estes é impossível – e nada os convencerá do contrário – que um LP possa soar bem ou que uma imagem gravada num rolo fique bem focada e nítida. É importante ter em conta que a percepção geral, que é em grande parte alimentada pela indústria, é a de que o vinil e a película são parte do passado, tendo sido tornados obsoletos. No ponto de vista dos cidadãos comuns, para quem o sentido prático é o mais importante (mesmo que à custa da qualidade), os gira-discos e as máquinas de película não são mais que velharias. Ainda hoje vi uma Rolleicord e uma Praktica decorando as montras de duas lojas de antiguidades pelas quais passei, juntamente com objectos tão velhos que perderam qualquer utilidade prática. Isto facilita a criação dos preconceitos que referi, bem como as comparações com locomotivas a vapor e veleiros que surgem frequentemente.

Do lado dos analoguistas as coisas passam-se sensivelmente da mesma maneira. Há aqueles que vivem o presente, estão a par de tudo o que é inovação e a adoptam, mas continuam a usar meios analógicos por uma série de razões, que vão do prazer puro à qualidade que extraem do médio e grande formato. Duvido que haja algum analoguista que ouça vinis ou fotografe em película por não ter dado pela passagem do tempo e se recusar a viver no presente. Talvez os haja, mas serão em número insignificante. (Apesar de ser assim que os digitalistas radicais vêem todos os analoguistas.) O que existem, outrossim, é analoguistas que vêem as suas convicções ameaçadas pelos progressos significativos dos meios digitais e reagem refugiando-se cada vez mais nos seus pequenos cultos e recusando-se a reconhecer aqueles progressos. Isto leva, por exemplo, a que ainda haja quem entenda que o formato 135 é superior ao digital, quando já não o é há algum tempo: é impossível comparar o que uma máquina de formato 135 pode fazer com aquilo de que uma Nikon D810 é capaz. Esta é uma concepção particularmente asinina da fotografia e, sobretudo, uma incrível falta de atenção ao que acontece à sua volta. Não reconhecer o papel que a tecnologia digital tem na continuidade do culto da película – quantos ainda a usariam se não fosse a digitalização? – é pura cegueira.

Seja como for, a realidade das coisas leva a que os digitalistas sejam mais agressivos nos seus ataques. Pelo menos são mais audíveis por estarem em maioria. Têm do seu lado o peso da fatalidade: um dia tudo será electrónico e digital. Quando esse dia vier, estarão prontos – ao contrário dos gerontes que passam o seu tempo em caves poeirentas, recobertas de teias de aranha, e, movendo-se lentamente por causa da cifose e das artrites, ouvem os seus discos riscados em aparelhos de baquelite e tiram fotografias desfocadas com as suas máquinas de fole com caixa de madeira, ignorando as maravilhas da tecnologia.

M. V. M.

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