Eu, o Nostradamus da Fotografia, e as minhas profecias (3)

Penso que não é preciso ser um profeta – o título destes últimos artigos é sarcástico, caso alguém não se tenha dado conta – para prever o que vai acontecer com a indústria fotográfica: basta analisar as tendências dos últimos tempos para extrair conclusões. É certo que podem surgir fenómenos impossíveis de prever que alterem essas tendências, mas tal como as coisas estão não me parece concebível qualquer cenário que não seja o declínio da indústria fotográfica à custa da predominância crescente dos telemóveis.

Haverá excepções? A resposta é um resoluto talvez. Poderíamos pensar que as mirrorless trazem algo de novo à indústria fotográfica e podem renovar o entusiasmo pelas câmaras tradicionais (porque as mirrorless ainda o são), mas com o passar do tempo torna-se cada vez mais claro que estas câmaras são para pessoas que não sabem muito bem o que estão a comprar, tanto lhes fazendo ter uma câmara destas com um zoom de longo alcance como uma bridge, ou para nerds que entendem que estas câmaras são melhores porque o visor óptico das DSLR é uma coisa do passado e o visor electrónico é melhor e é o futuro porque é electrónico. De resto, estas câmaras nunca conseguirão fazer melhor que as DSLR por lhes faltar a rapidez, a robustez e a funcionalidade. Sendo assim, também vão acabar por desaparecer.

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E as Leica – quer dizer, as Leica da série M? Conseguirão sobreviver? Provavelmente. Beneficiam, como sempre beneficiaram, da sua exclusividade e prestígio. Resta saber em que medida a redução inevitável nas vendas das Panasonic travestidas de Leicas afectará a continuidade da produção das M. Se a Leica tiver ramos de actividade suficientemente lucrativos (fora da indústria fotográfica, evidentemente), é bem possível que os mais abastados continuem a cultivar a lenda das série M.

***

Os dois textos anteriores, tal como os três parágrafos acima, podem ter parecido demasiado pessimistas; alguns leitores terão porventura detectado alguns traços de cinismo nas linhas que escrevi. Se for este o caso, acertaram. De facto, não vejo nada de bom no rumo que a fotografia está a tomar. Reparem que escrevo «a fotografia», não «a indústria fotográfica», porque esta é uma crise da própria fotografia. Podia dizer que existe uma excepção, um motivo que me leva a amenizar as minhas previsões negras; esse raio de luz que penetra na escuridão, essa brisa fresca no sufoco dos dias que hão-de vir, estaria no interesse crescente em nichos como a fotografia analógica, aqui compreendida a Lomografia (pela qual me recuso a nutrir desprezo). É verdade que sinto motivos para ser optimista. Muitos motivos. Cada um dos jovens que vejo a adquirir rolos sempre que vou à Câmaras & Companhia é um desses motivos.

De facto, isto pode levar a que subsista uma franja de verdadeiros entusiastas da fotografia, mas será confinada a um estatuto deveras marginal. (Ainda mais do que é agora, quero dizer). É que, mesmo entre os cultores da fotografia analógica, há muita gente a fotografar de uma maneira tão desinteressante como o que se vê por aí feito com câmaras digitais e telemóveis. Não é decerto este o conceito de fotografia – em que apenas o meio utilizado muda – que eu propugno. A fotografia analógica devia ser diferente por ser mais exigente. Ora, uma fotografia tanto pode ser medíocre se for usado um rolo de película ou um sensor. A salvação da fotografia não depende necessariamente do culto da película, embora não me surpreendesse que este viesse de novo socorrê-la, como fez aquando do advento da tecnologia digital.

Em todo o caso, espero que os ideais da fotografia como forma de expressão da mente do seu autor não morram. Não sei dizer, porém, se ainda estarão vivos dentro de vinte anos. É possível que estejam, mas dificilmente conseguiremos ver os seus produtos no meio da overdose imagética que o futuro nos trará. Seja como for, não serão decerto os smartphones que vão ajudar a manter vivos os ideais da fotografia artística.

M. V. M.

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