Eu, o Nostradamus da Fotografia, e as minhas profecias (2)

Os primeiros fabricantes a soçobrar, neste futuro negro que antevejo, serão os de menor dimensão. Dentro de vinte anos, a Pentax, a Olympus, a Fujifilm e a Panasonic abandonarão a produção de câmaras. Apesar de integradas em grupos económicos de dimensão considerável, não será surpresa nenhuma se os CEO destes últimos chegarem, dentro dos próximos anos, à conclusão de que os sectores de imagem dão demasiado prejuízo e são inviáveis. A Ricoh (que decerto também cessará o fabrico de câmaras sob a sua própria marca) tem o negócio do material de escritório; a Olympus e a Fuji têm a imagiologia médica e a Panasonic é, como sabemos, um gigante da electrónica que, se ainda existir num futuro próximo, acabará por compreender que perde demasiado dinheiro com produtos que os consumidores não compram e cessará a produção de câmaras. Mesmo a Sony acabará por fazer o mesmo, mantendo porventura o negócio dos sensores – pelo menos enquanto não for encontrada uma tecnologia que supere o binómio lente-sensor (o que, quando acontecer, resultará novamente num prejuízo para a qualidade, mas por esta altura os padrões de qualidade terão descido de tal maneira que ninguém se queixará).

Tudo caminha, desta maneira, para que marcas como a Pentax e a Olympus sejam, dentro de vinte anos, mencionadas da mesma maneira como hoje evocamos a Praktica, a Pentacon e a Yashica. Há, ao longo da história, uma diminuição constante do número de fabricantes; muitos simplesmente desapareceram, outros foram engolidos por companhias com maior poder económico. Esta diminuição, que foi brutalmente acelerada quando a fotografia digital se impôs, atingirá o seu apogeu quando os consumidores perceberem que não precisam de fotografias de alta qualidade porque reduzir imagens de 20 megapixéis dá demasiado trabalho.

Repararam que não mencionei a Canon e a Nikon. Destas duas, a que vai provavelmente sofrer mais é a Nikon, por o equipamento fotográfico constituir o grosso da sua actividade. A Canon terá sempre o negócio do material de escritório, que provavelmente também sofrerá danos no futuro com a crescente desmaterialização dos documentos, mas tal demorará mais do que a substituição completa das câmaras por pequenos computadores multifuncionais. O que prevejo – e não existe nada que me faça pensar o contrário – é que as compactas e as bridge desapareçam num período muito curto e que as DSLR de baixa e média gama vão desaparecendo progressivamente até apenas restarem as full frame profissionais, que custarão preços absolutamente proibitivos atenta a impossibilidade de realizar economias de escala. Naturalmente, estas câmaras serão fabricadas em números reduzidos porque a própria imprensa (se ainda for correcto usar esta expressão no futuro) deixará progressivamente de necessitar dos serviços dos fotojornalistas a quem estas câmaras melhor servem. As notícias serão vistas online ou na TV, pelo que a informação visual terá por base o vídeo e não as imagens congeladas.

Tudo parece concorrer, se este raciocínio estiver correcto, para que a câmara fotográfica desapareça quase por completo. Mesmo as máquinas de médio formato usadas pelos estúdios para trabalhos de publicidade poderão extinguir-se, porque o seu campo de aplicação é a fotografia publicitária e esta vai progressivamente deixar de ter lugar com o desaparecimento gradual da imprensa escrita. Haverá sempre os outdoors para justificar o fabrico das Hasselblad e Phase One, mas será uma área da fotografia cada vez mais confinada e estreita.

E assim caminhamos para a imbecilização completa da fotografia. Qual o lugar da fotografia amadora no meio disto tudo? Haverá sempre os «grandes fotógrafos» do facebook, com certeza, mas estes terão deixado as câmaras de lado e fotografarão alegremente com smartphones, como bons patetas que são. A fotografia deixará de ser um meio de expressão artística, porque não haverá lugar à originalidade num meio tão banalizado; e, como tudo o que fazemos é de todos, a fotografia dos fotógrafos do facebook copiar-se-á a si mesma repetidamente até se tornar numa irrelevância e desaparecer. Quem gosta de fotografia viverá do passado. A única virtude desta perda de respeitabilidade da fotografia estará, porventura, no renascimento de formas de expressão plástica que a fotografia afectou quando era uma pretendente ao estatuto de arte: é bem possível que a pintura, o desenho e a gravura ocupem o lugar que tinham antes de Nadar e Edward Steichen – mas convenientemente reduzidos a imagens digitais, porque esta é a única maneira como serão vistos pelo público: as pessoas estarão demasiado ocupadas a partilhar imagens das suas refeições nas redes sociais para frequentar exposições. (Continua)

M. V. M.

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1 thought on “Eu, o Nostradamus da Fotografia, e as minhas profecias (2)”

  1. Apesar de ser uma previsão tão ou mais negra que as de Nostradamus não sei quão distanciada estará da realidade. Espero que muito, especialmente dum ponto de vista profundamente egoista, já que sou uma frequentadora de exposições e acredito que o mundo tem muito mais para dar que o que confinamos aos ecrãs dos telemoveis. Creio que há ainda uma plataforma de inconformados, mas possivelmente demasiado poucos para influenciar uma industria.

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