Eu, o Nostradamus da Fotografia, e as minhas profecias (1)

6_buy_largeNa sexta-feira viajei de autocarro, o que já não fazia há algum tempo. Há muito que tenho reparado na presença ominosa do telemóvel na vida das pessoas, mas nesse dia apercebi-me que, à minha frente, seguiam três estudantes universitários (pelo menos pareciam estudantes universitários) sentados naqueles assentos de autocarro que ficam defronte um ao outro. Durante o trajecto, que não foi assim tão curto, o rapaz e as duas raparigas não trocaram uma palavra entre si. Elas olhavam o ecrã de um smartphone e o rapaz, que parecia absorto na paisagem que deslizava pela janela do autocarro, só era despertado do letargo quando uma das raparigas se propunha mostrar-lhe qualquer coisa que acontecia no telemóvel.

Antes disso tinha ouvido uma reportagem na TSF sobre a relação das crianças com os smartphones: aparentemente, estes aparelhos servem para tudo menos telefonar e enviar mensagens, mas todas as crianças referiram a sua capacidade de tirar e mostrar fotografias. Isto não pode deixar de ser um presságio do futuro negro que espera os fabricantes tradicionais.

A forma como o telemóvel (já não é muito correcto chamá-lo assim, mas faço-o por puro acinte) entrou na vida das pessoas é um fenómeno que merece reflexão. Não posso, em bom rigor, criticar esta intrusão, porque ela decorre, com toda a naturalidade, da forma como deixámos que o computador tomasse conta das nossas vidas. A diferença é que esse computador pode agora andar no nosso bolso, em lugar de ficar pousado numa secretária ou ser transportado num saco desajeitado e pode ser usado a toda a hora e em todos os lugares. E pode tirar fotografias, fazendo-o com uma aparência de qualidade que leva muitos a imaginar que o smartphone torna desnecessária a câmara fotográfica tradicional. Sabemos que as vendas dos fabricantes de equipamento fotográfico estão em queda desde 2007, ano em que a Apple lançou o iPhone; uma vez que a marcha em direcção à miniaturização dos computadores é inexorável, não se prevendo que vá parar ou sequer abrandar tão cedo, é caso para reflectir sobre qual o destino da indústria fotográfica no futuro próximo.

Não antevejo nada de muito bom para os actuais fabricantes de equipamento fotográfico. A fotografia está cada vez mais banalizada graças à «partilha» nas redes sociais e, em consequência, a qualidade de imagem deixou de ser um argumento de vendas convincente. Isto tem tudo que ver com a maneira como se fotografa hoje: a comodidade de fotografar e partilhar instantaneamente, que é incompatível com os requisitos que a qualidade de imagem impõe, vai acabar por levar a que o consumidor não sinta necessidade de câmaras capazes de uma qualidade excelente. Hoje em dia fotografa-se para as redes sociais: este é um facto inelutável que só conhece uma resistência ténue de um grupo cada vez menos significativo de pessoas. Nada permite concluir que esta tendência, que tem crescido espectacularmente nos últimos anos, vá atenuar. Pelo contrário, com a baixa dos preços dos smartphones e tarifários cada vez mais competitivos, a tendência é para aumentar.

Ora, o que o consumidor futuro vai pretender é partilhar as suas fotografias imediatamente, o que implica tamanhos reduzidos. Pode acontecer que os fabricantes de smartphones avancem um pouco mais na qualidade da imagem, mas as apps e o Instagram encarregar-se-ão de processar a imagem a gosto do utilizador e de fazer com que as pequenas imagens publicadas nas redes sociais pareçam de enorme qualidade. (Percebem agora por que a Google está a ceder o software da Nik gratuitamente?)

Tem havido uma preparação dos consumidores para que aceitem e se conformem com esta diminuição da qualidade de imagem. Os websites de fotografia não têm feito outra coisa ao longo dos últimos cinco ou seis anos. Apresentam e testam smartphones como se fossem câmaras verdadeiras e próprias e usam mecanismos de persuasão mais ou menos subtis, como um redactor de um website de referência que está empenhado em convencer os leitores que as grande-angulares são excelentes para fazer retratos (julgo que toda a gente sabe que as lentes dos smartphones têm distâncias focais de grande-angular). Juntando a isto um público consumidor ávido por gadgets e disposto a deixar-se iludir por promessas ilusórias de alta qualidade, que é manipulado de forma a ser ele mesmo um veículo publicitário (quantos idiotas é que já surpreendemos a comentar na internet que Cartier-Bresson usaria um iPhone se fosse vivo?), temos o terreno preparado para a dominação dos smartphones e a extinção dos fabricantes de câmaras tradicionais. (Continua)

M. V. M.

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