A Câmara Clara (Parte 2)

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Além do studium, que é a resposta cultural a uma dada fotografia, existe o punctum. Roland Barthes usa esta expressão para descrever a impressão inefável («punctum» como algo pontiagudo, que fere) que um dado elemento integrante de uma fotografia causa no espectador, algo que, estando na fotografia, causa uma resposta que é exterior a ela e pertence ao domínio emocional do spectator: é a forma como esse elemento afecta cada um. Barthes utiliza os exemplos de várias fotografias para descrever qual o elemento presente na imagem que confere esse sentido pessoal: pode ser uma gola, o dente podre de uma criança (como na criança da fotografia de William Klein abaixo), um colar – mas também pode ser uma imagem como um todo, um lugar ou um objecto que causa uma reacção subjectiva no espectador. Outras fotografias, por seu turno, não têm qualquer espécie de punctum: não afectam, não causam qualquer resposta. Uma fotografia tem sempre studium, mas não necessariamente punctum. Simplesmente, por estarmos no âmbito da subjectividade, a fotografia que não afecta um espectador pode causar uma profunda impressão noutro.

Por William Klein
Por William Klein

A Câmara Clara é uma teorização (felizmente não demasiado elaborada) de algo que todos nós percebemos de uma forma bastante simples: a fotografia oferece-se-nos à inteligência e aos sentidos. A análise que Barthes faz é necessariamente incompleta pois, para além do seu gosto pelo som do obturador, falta-lhe o conhecimento da fotografia como operator. Contudo, A Câmara Clara não se esgota na sistematização dos sujeitos, do objecto e dos níveis de percepção: este ensaio é repleto de aproximações válidas ao fenómeno da Fotografia e demonstra também uma capacidade de análise que é absolutamente actual, mesmo se o ensaio foi acabado de escrever em 1979. Segundo Barthes, a Fotografia sofre dessa loucura de ser e não ser: «[a] fotografia é uma evidência forçada, carregada, como se caricaturasse, não a figura daquilo que representa (é bem o contrário), mas a sua própria existência» (p. 126). A Fotografia, sendo imagem, é um nada de objecto, mas é também algo que diz «isto foi» – isto aconteceu, logo é algo. É a imagem tocada pelo real.

Para evitar esta loucura, conclui Barthes, a fotografia só tem dois caminhos: ou se transforma numa arte («porque nenhuma arte é louca») ou se banaliza. «É o que se passa na nossa sociedade, em que a Fotografia esmaga com a sua tirania as outras imagens» (…) porque generalizada, ela [a Fotografia] desrealiza por completo o mundo humano dos conflitos e dos desejos, sob o pretexto de os ilustrar» (p. 129). As pessoas que tiram milhares de fotografias e as depositam a toda a hora na gamela a que chamam «facebook» deviam pensar nisto: estamos a substituir a realidade pelas suas imagens.

Não foi minha intenção fazer uma crítica a A Câmara Clara. Não tenho o saber necessário para tanto e, de resto, seria demasiada pretensão querer controverter o pensamento de alguém como Roland Barthes. Há certamente muito, na apreciação que Barthes faz da fotografia, com que não concordo – em parte por estar habituado a observar a fotografia do ponto de vista do operator, mas sobretudo por valorizar aspectos que, vendo bem as coisas, não são assim tão importantes para o espectador. Este, porém, é um estudo de uma importância fundamental para se compreender a fotografia como fenómeno social e para fazer pensar melhor sobre a forma como o espectador se relaciona – se envolve – com ela. A Câmara Clara é uma leitura que, apesar de tudo, recomendo a qualquer pessoa que tenha desenvolvido um interesse pela fotografia que vá para além da mera estética. É um ensaio que faz reflectir, embora as suas conclusões mais concretas e importantes se sintetizem nas poucas páginas que compõem o último capítulo – o que não significa, evidentemente, que o que está antes seja destituído de valor ou de importância. Pelo contrário.

M. V. M.

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