Este não é mais um texto fora do tema

Este texto é sobre fotografia, liberdade de expressão, censura e mais um fotógrafo que descobri. Decidi escrevê-lo ao perceber que, se eu fosse um cidadão norte-americano, estaria nesta altura preso por posse e divulgação de pornografia. Além das fotografias de nus de Lucien Clergue, Kishin Shinoyama, Toto Frima e Larry Clark que ajudei a divulgar no Número f/, tenho ainda alguns LP’s cujas capas podem ser consideradas obscenas pelos puritanos norte-americanos. Apesar de não ter um website pornográfico clandestino (nem livros indecentes debaixo do colchão), com a moralidade vigente no país que engendrou Donald Trump eu estaria hoje, quem sabe, no corredor da morte.

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Infelizmente, nenhuma capa dos LP’s que tenho – ou dos meus CD’s, que também tenho muitos – se compara, em sensualidade e provocação erótica, à do primeiro álbum de uma banda chamada The Strokes. O álbum chama-se Is This It e a fotografia da capa foi feita por um Colin Lane, sobre o qual escreverei mais abaixo.

Esta é uma das melhores capas de álbuns musicais que conheço. A fotografia é perfeita na insinuação trazida pela luva negra, que remete para um mundo de fantasias inconfessáveis. A luva é a espoleta, o ponto de partida para a imaginação de cada um, que poderá deter-se logo após alguns instantes ou explorar cantos recônditos da mente onde vivem as fantasias da dor como via para o prazer. É uma capa carregada de erotismo, porque sugere mais do que mostra e sugerir mais do que se mostra é a noção exacta de erotismo.

Graficamente, a capa de Is This It é simplesmente brilhante. É um prazer saber que ainda existem bandas que se preocupam com a qualidade das suas capas. As proporções, as combinações de cores e a escolha dos caracteres contribuem para fazer desta uma capa equilibrada e de um bom gosto irrepreensível. (Curiosamente, apesar de o título do álbum ser uma pergunta, os The Strokes excluíram o ponto de interrogação por desequilibrar a estética da capa!)

Simplesmente, apesar de não ser pornográfica e de os The Strokes serem americanos, tendo este álbum sido efusivamente aclamado pela crítica quando saiu, há quinze anos, não pôde ser editado com a capa original nos Estados Unidos: em lugar da capa com a fotografia de Colin Lane, o álbum foi vendido com a capa que mostro abaixo (que não é nada má, antes pelo contrário, mas deixa muito a desejar quando comparada com a original):

Strokes_IsThisIt(LP)

Eu já me pronunciei sobre isto. Se o leitor passou o texto em que me refiro ao puritanismo que se apoderou do país que inventou a indústria pornográfica, pode lê-lo aqui. Apenas acrescento – ou reforço, se preferirem – que isto não é mais que uma forma de censura. É inacreditável que um país como os Estados Unidos, que invade outros e se arroga a qualidade de polícia do mundo em nome da liberdade, seja incapaz de respeitar e fazer respeitar uma liberdade tão elementar e fundamental como a de expressão e criação artística no seu próprio território.

O interesse pela capa de Is This It levou-me a descobrir o autor da fotografia, Colin Lane, que parece ser um profissional muito requisitado por bandas alternativas e nutrir uma predilecção pelos The Savages. Gosto do estilo dele: quer se dedique ao retrato, à fotografia de grupo das bandas ou a capas, a sua fotografia tem um ar que é simultaneamente intemporal e dos nossos dias. Ele cultiva o preto-e-branco com mestria, sem que o resultado se traduza em pastiches da era de ouro da fotografia.

Por coincidência, é de Colin Lane a fotografia da capa de The Vaccines Come Of Age (ou só Come Of Age), da banda que tem monopolizado o meu interesse musical nos últimos tempos, The Vaccines. Esta capa é genial: Lane (ou alguém por ele) encontrou quatro raparigas com sinais fisionómicos semelhantes aos dos membros da banda e fotografou-as em grupo. Estou certo que já foi feito algo semelhante – aparece-me na memória, de forma intermitente e nebulosa, uma capa de um álbum em que as imagens dos membros da banda são substituídas por outras deles enquanto crianças, uma substituição análoga à desta capa –, mas o resultado final não deixa de ser muito interessante. Esta é mais uma capa excelente.

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Seja como for, é extremamente agradável ver que o conceito de artwork aplicado às capas de álbuns não se esgotou com os Velvet Underground e Andy Warhol, ou com os Joy Division e Peter Saville. É uma daquelas pequenas coisas que me ajudam a ter confiança no futuro.

M. V. M.

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