O estado das coisas

A fotografia artística morreu. Hoje em dia já não há mais lugar para a originalidade, para a excelência, para a autoria. Esta última ainda parece resistir, mas é uma noção falseada: as pessoas gostam das fotografias de um determinado fotógrafo acéfala e acriticamente, só porque são dele. De resto, olhando para as fotografias que aparecem, vemos apenas imitadores – gente que imagina que, por ter determinadas câmaras e software de edição de imagem, são os novos Cartier-Bresson e McCurry. O último bastião da fotografia artística é o fotojornalismo – é aqui que encontramos os frutos do que Henri Cartier-Bresson e W. Eugene Smith semearam –, mas este está sob ameaça e tem-se confinado ao reduto da grande reportagem internacional, já que os patrões da imprensa começam a descobrir que sai mais barato dar iPhones aos jornalistas do que pagar salários a fotojornalistas.

O resto? Se retirarmos os amadores imitadores, os fotojornalistas e o cada vez menor número de fotógrafos profissionais, o que fica é um mar imenso de trampa. A corrida em que os fabricantes se lançaram para tornar a fotografia mais fácil e acessível, que teve o seu corolário na fotografia digital, levou à democratização, mas o iPhone foi mais longe e está a levar à banalização da fotografia. Hoje em dia fotografar é tão fácil e barato que toda a gente documenta cada minuto da sua vida e mostra-o, mesmo sem cuidar de saber se o mundo está interessado em saber em que esplanada é que Fulano está a beber uma cerveja.

Este é o paradoxo actual da fotografia: quanto maior a quantidade de imagens que se faz hoje, mais ela se torna irrelevante. Tantas selfies e imagens absurdas estão a ter o efeito de banalizar a fotografia, que se está a tornar um sucedâneo da escrita e da fala. Um sucedâneo estúpido, aliás: enquanto a fala carece de alguma elaboração, mostrar uma imagem no facebook ou no instagram não requer quase nenhuma actividade cerebral.

Isto tem um efeito adverso para outros géneros de fotografia. A percepção das pessoas mudou graças às redes sociais e agora uma fotografia tem de dizer tudo instantaneamente. A fotografia tem de ser interpretada em poucos segundos, o que significa que não pode haver lugar à subtileza, à decifração e à contemplação atenta.

E também não há lugar, como vimos, à criatividade e à originalidade. Como pode alguém ter a pretensão de ser original quando, ao fotografar, está a fazer algo que toda a gente faz? Hoje em dia, pretender ser original na fotografia é como querer ter uma forma de respirar distinta, ou uma maneira de caminhar criativa. Não vale a pena. Qualquer boa fotografia que eventualmente apareça é imediatamente soterrada debaixo de uma avalancha de milhões de selfies e de imagens ridículas. Isto leva-me a pensar muito seriamente se quero continuar a fotografar.

Note-se que hoje não se fotografa para recordar. O tempo em que se fotografava para fixar momentos que pareciam merecedores de ser lembrados no futuro já passou, tal como os dias em que se fotografavam as pessoas de quem se gostava foram varridos. Hoje não se fotografa para a memória, mas para exibir – para exibir a vacuidade da vida e para exibir o ego narcisista e frívolo que é o sinal dos nossos tempos. Ninguém guarda fotografias, ninguém as imprime: elas deixaram de ter qualquer valor estimativo. São coisas disponíveis e que, no fundo, não têm grande significado: a facilidade com que se obtêm e se mostram implica que a sua utilidade se esgota em poucos segundos. Uma fotografia merece tanta atenção como um brinquedo dado a uma criança que já tem milhares deles.

Isto tudo deixa-me a ponderar se não deverei desistir da fotografia. Comecei com ela há pouco – o que são cinco anos? – porque queria exprimir-me visualmente, mas dou por mim atolado numa espécie de massa informe que cada vez tem menor significado. Fotografar faz cada vez menos sentido. Não é que tudo esteja fotografado, mas para quê tentar fazer fotografias com algum conteúdo se as pessoas apenas olham para elas durante dois segundos e o seu julgamento é feito com base no reconhecimento (ou não) do motivo? Hoje as pessoas têm acesso a tantas fotografias que seria absurdo pedir-lhes que prestassem atenção a alguma em particular. Quando muito, dão valor a quem a faz – mesmo que este último não tenha nem metade do valor que lhe atribuem e copie descaradamente.

Eu não estou interessado em copiar outros (nem em ser copiado), em seguir fórmulas estafadas ou em fotografar trivialidades – tal como não me interessa usar fotografias para que qualquer estranho fique a par do meu quotidiano. Também já vou demasiado tarde para me tornar profissional, o que implicaria passar o resto da minha vida a lutar sem garantias de poder aceder a um mínimo de conforto. Os meus dias da fotografia podem estar contados – mas não fico particularmente desgostoso por isso.

M. V. M.

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3 thoughts on “O estado das coisas”

  1. Não será em vão que se fazem retratos, mais não seja dos que nos rodeiam / “mereçem”, e possam essas fotos (apôs serem impressas), “servirem de algo” daqui á uns anos, e somarem um valor que subestimamos….!
    Há cerca de 10 anos atrás deixei de fotografar… as “pedras” como lhes chamava!
    Regressei á “fotográfia”, quando passei a ter pessoas em frente á objectiva…
    Por vezes, apenas falta (re)descrobrir algo que no mova!

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